Nada a esconder



Dirigido por Fred Cavayé, o filme "Nada a esconder" (Le Jeu, 2018) é a versão francesa do longa italiano Perfetti sconosciuti (2016), uma comédia dramática de Paolo Genovese.


O filme narra o encontro de amigos que se reúnem para um jantar, durante um eclipse total da lua. No transcorrer da reunião, eles decidem realizar um jogo perigoso: todos deverão ler em voz alta qualquer tipo de mensagem recebida em seus respectivos smartphones e atender em viva voz as chamadas telefônicas. O resultado disso são revelações pessoais que envolvem intrigas, traições e preconceitos.

O longa original fez enorme sucesso e ganhou o David di Donatello, o oscar italiano, e o prêmio da crítica, Nastro D'Argento. Também levou o Globo de Ouro de 2016 na categoria melhor comédia, além de outros prêmios, como o de melhor roteiro no Tribeca Film Festival e no Bari Internacional Film Festival. A história, aparentemente simples, transformou-se num verdadeiro fenômeno mundial. Como a telenovela colombiana "Yo Soy Betty, La fea", o roteiro do italiano Paulo Veronese vem ganhando várias versões pelo mundo afora: espanhola, mexicana, chinesa, coreana, turca...enfim. Em cada remake, os diretores tentam imprimir seu toque pessoal, com ênfase ou não no aspecto fantástico do roteiro.

Na versão francesa, Fred Cavayé fez um excelente trabalho de direção de atores. Há uma ênfase no jogo de olhares e na postura corporal. Desde o começo da trama é possível perceber pequenos detalhes sobre a psicologia dos personagens. Há um cuidado em evidenciar alguns elementos cênicos, muito mais que na versão italiana. O diretor constrói uma narrativa repleta de pistas para os espectadores mais atentos, como uma espécie de indicador dos acontecimentos futuros. 

Destaque também para o trabalho da fotografia, a cargo de Denis Roudon,  e de edição, de Mickael Dumontier, em perfeita sintonia com o jogo cênico. Os enquadramentos e a movimentação de câmera revelam um olhar de observador à espreita, sem perder nenhum evento, sustentando uma atmosfera de mistério. 

No filme de Cavayé, os anfitriões do jantar são Marie (Berénice Bejo) e Vincent (Stephane de Grodt), que divergem quanto à criação de sua filha Margot (Fleur Fitoussi). Eles convidam os casais de amigos: Charlotte (Suzanne Clément) e Marco (Roschdy Zem), que possuem uma relação explosiva; o taxista Thomaz (Vincent Elbaz), recém casado com Léa (Doria Tillier); e o professor de educação física Ben (Grégory Gadebois) e sua misteriosa namorada.

À medida que o jogo vai avançando, os personagens vão revelando seus segredos. O mote do enredo: na era da tecnologia digital e das redes sociais, os celulares não são mais um inocente meio de comunicação, mas se tornaram quase como uma espécie de "caixa preta" das vidas dos indivíduos. São dispositivos eletrônicos que carregam a intimidade de seus proprietários.


A adaptação francesa aposta na sutileza das interpretações, mantendo a essência do original italiano. O aspecto fantástico está presente, mas não é o primordial neste filme. Diferente, por exemplo, da versão espanhola, de Álex de la iglesia, que explora o sobrenatural. O longa de Cavayé também é mais ambíguo e cheio de nuances, distinto da versão mexicana, de Manolo Caro, em que os conflitos são resolvidos de maneira mais seca e direta.   


Em Le Jeu podemos observar uma nítida linha de construção psicológica, em que os personagens estão separados por diferentes pontos de vista, padrões de comportamento e status social. Mais que um jogo, as situações revelam um humor ácido, mas também o drama pessoal por detrás das aparências. Destaque para as atuações de Berénice Bejo, Suzanne Clément, Stephane de Grodt e Grégory Gadebois.

As versões francesa, espanhola e mexicana podem ser encontradas na Netflix.


Elisabete Estumano Freire.






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