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NO MUNDO DO CINEMA

BACURAU


Bacurau, novo filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é uma alegoria da resistência do povo brasileiro e, principalmente nordestino, contra a opressão, o preconceito e o imperialismo estrangeiro. O longa, ovacionado nos principais festivais internacionais, foi vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes e do prêmio de melhor filme na Mostra CineMasters Competition do 37° Festival de Cinema de Munique (Filmfest München).

A história se passa num futuro distópico, porém não muito distante da realidade brasileira. Bacurau é um vilarejo do sertão nordestino onde falta tudo (remédios, alimentos, água, etc.), só não falta consciência política. Acostumados com a vida sofrida, esquecidos do poder público, os habitantes de Bacurau estão cansados das promessas eleitoreiras e não se deixam mais enganar. Unidos, eles criam uma rede de proteção para sobreviverem contra ataques externos. Entretanto, o vilarejo começa a ser alvo de uma onda de violentos e misteriosos crimes. 

Com um estilo que nos remetem às alegorias cinematográficas de Glauber Rocha, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles também utilizam o recurso da criação de um território imaginário como metáfora do Brasil. Em Terra em Transe (1967), o cenário é a província de Alecrim, capital de "Eldorado", fictício país atlântico, palco de um golpe de estado; em Bacurau (2019), na fictícia cidade do sertão nordestino, há uma tentativa feroz de aniquilamento de seu povo.

A narrativa é construída numa atmosfera fantástica, explorando o imaginário místico e sobrenatural do interior do país. O filme evidencia o uso das tecnologias de comunicação, o terrorismo e a desumanização das relações de poder. Coloca em pauta questões como dominação cultural e econômica, políticas imperialistas e ideologias racistas, mostrando um país dividido pela intolerância e preconceito regional. O roteiro enfatiza a resistência do povo que, mesmo oprimido, ainda encontra forças para lutar por sua dignidade e liberdade.

O longa possui uma tessitura singular, reunindo num mesmo projeto convenções de diferentes gêneros cinematográficos: da ficção científica ao drama rural, passando pelo suspense, filmes de cangaço e serial killer. A opção, na montagem, de fazer referências a obras icônicas da cinematografia é uma surpresa à parte. Por outro lado,  a trilha musical mistura diferentes ritmos e sons, trazendo a musicalidade do nordeste, além de incorporar o eletrônico e o pop internacional. 

O filme é uma coprodução Brasil-França (CinemaScopio do Recife; SBS de Paris), que reuniu um elenco internacional. Destaque para a atriz Sonia Braga, no papel da Dra. Domingas; Karine Teles como a forasteira; e o ator alemão Udo Kier (SuspiriaGarotos de ProgramaBerlin Alexanderplatzque interpreta o misterioso Michael. No elenco, temos ainda as presenças de Barbara Colen (Aquarius), Silvero Pereira, Thomas Aquino, Antonio Saboia, Rubens Santos e Lia de Itamaracá.

Bacurau abriu o Festival de Cinema de Gramado de 2019 e recebeu convites para ser exibido em mais de 100 festivais e mostras. Aclamado internacionalmente, teve os direitos de distribuição vendidos para 30 países, incluíndo salas de cinema, home vídeo e streaming para os EUA, Canadá, Reino Unido, França, Japão, Bélgica, Luxemburgo, Holanda, República Tcheca, Taiwan, em países da América Latina e Escandinávia. 

Elisabete Estumano Freire.

Simonal

Dirigido por Leonardo Domingues, a cinebiografia "Simonal" narra a trajetória de Wilson Simonal de Castro, um dos cantores brasileiros mais populares das décadas de 1960 e 1970.

O filme mostra o início da carreira, quando o cantor deixa a banda "Dry Boys" para trabalhar com Carlos Imperial. A partir daí, o artista conquista seu espaço e começa uma trajetória de sucesso, culminando com o célebre show no Maracanãzinho, em 1969. Transformado em garoto propaganda da Shell, a multinacional do Petróleo no Brasil, Wilson Simonal começa a dar os primeiros passos numa carreira internacional. 

Tudo parecia ir bem até que ele descobre estar falido financeiramente. É quando tem início o drama pessoal do artista. Simonal é acusado de ser o mandante do sequestro e tortura de seu ex-contador por agentes do Departamento de Ordem Política e Social - DOPS. O cantor é indiciado, preso e perseguido pela imprensa, ganhando a alcunha de "dedo-duro" da classe artística.
O longa de Domingues narra esta história controversa, tentando redimir o artista. Realizado com a colaboração de Max de Castro e Wilson Simoninha, filhos do cantor e responsáveis pela trilha sonora, a cinebiografia é uma espécie de desdobramento do documentário "Simonal - Ninguém sabe o duro que dei" de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, que também contou com a participação de Leonardo Domingues, na pós-produção.
O diretor, que também assina o roteiro em parceria com Victor Atherino, faz um recorte no tempo, mostrando o auge e a derrocada de um ídolo da música brasileira. A cinebiografia não aprofunda no passado do personagem, mas tenta apresentar algumas nuances da psicologia do artista, retratado como um homem um tanto rude, porém narcisista e de grande talento. 
Considerado o primeiro showman brasileiro, o cantor possuía uma enorme presença de palco, sabendo como ninguém comandar a plateia. Dono de uma voz e de um carisma inigualável, Simonal soube se destacar no cenário artístico brasileiro. Tido como culpado por alguns e injustiçado por outros, a história de sua vida, desconhecida pelas novas gerações, é o retrato de uma época de medo, censura e violência política. 


Numa conjuntura de grande repressão, Simonal cantava a "pilantragem" e as maravilhas de ser brasileiro, praticamente ignorando a situação política do país. Esse tipo de postura para um artista de grande projeção nacional não era bem visto pelos que lutavam pela volta da democracia. Por outro lado, o filme enfatiza que o artista denunciava o racismo no Brasil e que o seu sucesso incomodava boa parte da crítica especializada, além do próprio DOPS.

O filme não aborda os últimos anos da vida do cantor, que tentou voltar aos palcos inúmeras vezes, mas foi simplesmente expurgado do meio artístico. A narrativa é construída no sentido de justificar as ações de Simonal no episódio que marcou o fim de sua carreira musical. Ele surge como alguém deslumbrado pelo poder que conquistou, vítima de sua própria arrogância, declarações infelizes e revolta. De origem humilde, o cantor não estava preparado para lidar com a fama repentina e com o mundo dos negócios. Sentindo-se traído e roubado, ele optou pelo politicamente incorreto, agindo por impulso e pela força, sem medir as consequências de seus atos. Esse foi o seu maior erro.

A interpretação de Fabrício Boliveira é poderosa, intensa. O ator consegue captar nuances da personalidade de Simonal, dentro e fora dos palcos. Ísis Valverde, que interpreta Tereza, a primeira esposa, também tem bons momentos e a química entre os dois atores funciona. Algumas cenas são fortes, como os conflitos entre o casal, resultado também de certas liberdades do roteiro. 

O filme apresenta uma narrativa circular, em flashback, pontuada por imagens de arquivo do Rio de Janeiro da década de 1960. A produção prima pelos detalhes, com direção de arte e figurino impecáveis, a cargo de Yurica Yamazaki e Kika LopesA fotografia de Pablo Baião tem dois momentos de destaque: dois planos-sequência muito bem elaborados, mostrando o apogeu e o ostracismo do artista.
Mesmo após a sua morte, em 2000, resultado de problemas com o alcoolismo, muitos mantém a tese de que o artista foi realmente delator. Em 2002, a pedido da família, a Comissão de Direitos Humanos da OAB realizou uma investigação nos arquivos nacionais concluindo que não há nenhum registro de que o ex-sargento do exército fosse colaborador dos órgãos de repressão da Ditadura Militar. Wilson Simonal foi moralmente reabilitado em julgamento simbólico, em 2003.

O filme conta ainda com o seguinte elenco: Leandro Hassum, Mariana Lima, João Velho, Caco Ciocler, Bruce Gomlevsky, Letícia Isnard, Silvio Guindane, e as participações de Rafael Sieg, João Sabiá, Lilian Menezes e João Viana, entre outros. 

Elisabete Estumano Freire.



Dedo na Ferida



"Dedo na Ferida", de Silvio Tendler, discute a lógica do capital e o controle que a elite financeira dos países tem sobre as democracias nacionais, principalmente das nações mais pobres.

Utilizando uma narrativa baseada em entrevistas com autoridades de fala, o cineasta faz uma análise sobre as mazelas do grande capital que põe em risco as democracias contemporâneas. Mostra que o discurso de permanente crise financeira é essencialmente ideológico, com o objetivo de justificar a política de manutenção das desigualdades sociais. 

Acompanhando a rotina de um trabalhador do subúrbio carioca e de artistas populares, o cineasta faz um paralelo de como a lógica do capital especulativo e predatório atinge as populações mais pobres através do ataque aos direitos dos trabalhadores. Mostra como a mercantilização dos espaços produz bolsões de pobreza, como as favelas. De uma maneira quase didática, o cineasta traduz o discurso econômico, esclarecendo as razões pelas quais as políticas dos governos nacionais beneficiam as grandes empresas e os bancos. Deste modo, revela as causas da crise econômica, apontando as disparidades dos lucros dos donos do capital em consonância às políticas de austeridade dos países menos desenvolvidos, como o Brasil. 

Para traçar um panorama do cenário contemporâneo mundial, Tendler registrou depoimentos de cineastas, jornalistas, políticos, sindicalistas, historiadores e economistas. Entre os quais, podemos citar: o ex-ministro de finanças da Grécia, Yanis Varoufakis; o ex-ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim; o vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento-Brics, Paulo Nogueira Batista Jr; o cineasta Costa-Gravas; intelectuais das Universidades de Coimbra (Portugal), Universidade de Nova Iorque (EUA), Universidade Carlos III (Espanha); além de economistas da Pontíficia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), da Universidade de Campinas (Unicamp) e Universidade de São Paulo (USP).

O documentário faz uma análise dos reflexos das crises do capitalismo, desde a quebra da Bolsa de Nova Yorque, em 1929, até o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos, em 2008Revela dados da economia mundial, comparando o crescimento da pobreza e a falência dos estados nacionais, com o fortalecimento do poder das grandes corporações financeiras e midiáticas. 

O filme mostra ainda as consequências da crise no Brasil e no mundo, com o fim do Estado de Bem Estar Social. Através de um narrativa analítica, o filme descortina o modo como essas elites interferem nos governos dos países, utilizando a imprensa para convencer a sociedade a aceitar uma política de recessão e cortes das subvenções sociais. O longa enfoca as consequências da crise financeira nas democracias da América Latina, assim como em Portugal, Espanha e Grécia. 

Apesar de trabalhar com um assunto árido, a política e economia mundial, Tendler consegue dar o seu recado. Com um discurso direto, "Dedo na Ferida" aborda as causas e os fundamentos ideológicos do velho discurso de alteridade financeira e arrocho salarial, assim como a luta dos movimentos populares contra essa política nefasta. 

Como resultado, apresenta as tensões sociais, conflitos, dramas de comunidades inteiras e tragédias pessoais. Mostra como uma pequena elite, formada por bancos, seguradoras, fundos de investimento, grandes corporações empresariais e conglomerados de mídia, comanda os destinos dos recursos do planeta.


Com a ajuda da história, da economia e da filosofia, pontuando a narrativa com frases de grandes pensadores, o cineasta faz um paralelo entre esses dois mundos que parecem muito distantes, mas são duas faces da mesma moeda. O lucro das grandes corporações financeiras é responsável pelo aumento exponencial do número de miseráveis no planeta, principalmente nos países do chamado Terceiro Mundo. 

Em 48 anos de carreira, Silvio Tendler produziu e dirigiu 80 obras, sempre pautado por um olhar de cunho histórico e social, com ética e responsabilidade. Seu mais recente trabalho, "Dedo na Ferida" é, acima de tudo, um filme-denúncia sobre o panorama da política financeira internacional e como ela afeta o Brasil e os demais países ao redor do mundo. Um documentário que mistura uma reflexão poética com a sofrida realidade dos fatos políticos atuais.

"Dedo na ferida" foi eleito como melhor documentário no Festival do Rio 2017 e premiado com menção honrosa na Mostra Competitiva do Festival de Cinema Político da Argentina (FICIP), em 2018.


Elisabete Estumano Freire



45 dias sem você


Road-movie nacional, o longa "45 dias sem você", dirigido por Rafael Gomes (seriados "3 Teresas", "Vizinhos" e "Tudo o que é sólido pode derreter") mistura realidade e ficção através da trajetória sentimental de seus personagens. Estrelado pelos estreantes Rafael de Bona e Julia Correa, além de Mayara Constantino ("Tudo o que é sólido pode derreter", "Sessão de Terapia") e Fábio Lucindo (dublador de "Pokemón"), com participação de Ícaro Silva, os atores interpretam a si mesmos, dramatizando suas experiências pessoais com um toque de ficcionalidade, na pele de seus personagens.

O filme narra o drama sentimental de Rafael (Rafael de Bona), que foi abandonado pelo namorado no Brasil e decide viajar pela Europa e América Latina para digerir sua mágoa. Dividido em três grandes blocos, o filme foi estruturado de modo capitular, a partir de diferentes destinos: Inglaterra, França, Portugal e Argentina. Em cada lugar, ele encontra um amigo e histórias para compartilhar: Julia (Londres), Fábio (Coimbra) e Mayara (Buenos Ayres). Os atores, na vida real, também se exilaram do Brasil vivendo nos respectivos países. Segundo o diretor, o roteiro é baseado em acontecimentos verdadeiros, assim como todo o redor, incluindo os amigos e os espaços, que são os mesmos que os atores frequentavam.

Apesar de trabalhar com alguns elementos da realidade, é bom lembrar que o filme continua sendo ficcional. O roteiro é bastante dialógico, recheado de discursos pseudointelectuais e frases clichês, o que empobrece a narrativa. As relações são fluidas e o drama dos personagens não chega a ser aprofundado. Tudo é muito superficial, talvez intencionalmente para mostrar a efemeridade dos amores da juventude. 


De todo modo, a proposta de construir uma história jogando entre o ficcional e o não ficcional é interessante. Com uma bela fotografia, explorando os cenários de viagem, a narrativa romantizada também é encadeada pela trilha musical, com canções de Arnaldo Antunes, Céu, Clarice Falcão, Gal Costa, Los Hermanos e Thalles Cabral.

"45 dias sem você" é o primeiro longa de uma trilogia composta ainda pelos seguintes títulos já gravados, “Música Para Cortar os Pulsos” e “Meu Álbum de Amores", a serem lançados posteriormente. De acordo com o diretor, Rafael Gomes, os três filmes abordam a temática do amor na juventude. 


O filme "45 dias sem você" foi selecionado para os festivais Cinema Diverse: The Palm Springs LGBTQ Film Festival 2018, OUTShine Film Festival 2018, San Antonio QFest – LGBT International Film Festival 2018, para a Mostra Competitiva de Longas-Metragens do Festival Mix Brasil (2018) e para o encerramento do Curta Santos 2018.

Elisabete Estumano Freire.




“45 dias sem você” (96 minutos)
Ficha Técnica
Escrito e dirigido por Rafael Gomes
Produzido por Henrique Carvalhaes e Rafael Gomes
Coprodutores Diana Almeida e Daniel Ribeiro
Produtores associados Dhyana Mai, Fábio Lucindo, Julia Correa, Mayara Constantino e Rafael De Bona.
Direção de Fotografia Dhyana Mai
Edição Cristian Chinen, Laura Del Rey
Músicas de Arnaldo Antunes, Céu, Clarice Falcão, Gal Costa, Los Hermanos, Thalles Cabral
Distribuidora O2 Play

Beatriz

Estrelado por Marjorie Estiano e Sérgio Guizé, e dirigido por Alberto Graça, o filme Beatriz apresenta a história de Beatriz e Marcelo, que vivem um relacionamento marcado por jogos sexuais, criados para a construção de personagens literários.

O longa, uma coprodução da MPC Filmes (Brasil) e Filmes do Tejo II (Portugal), tem como pano de fundo a cidade de Lisboa, que também se torna personagem, como cenário ficcional das fantasias eróticas do casal. Convidado a escrever para uma grande editora Luso-Espanhola e ter seu livro adaptado para o teatro, Marcelo (Sérgio Guizé) está diante de um novo desafio, que abala o relacionamento. Em crise, Beatriz (Marjorie) vai tentar de tudo para manter o casamento e termina embarcando num jogo perigoso, que vai mudar seu modo de ver a vida. 

Roteirizado por Alberto Graça, em parceria com Marcos Bernstein, Ricardo Bravo, José Carvalho e José Pedro dos Santos, o filme apresenta uma visão fetichista da figura feminina. A personagem, talvez inspirada em Nelson Rodrigues e Neville D'Almeida, transforma-se numa versão sofisticada de "A Dama do Lotação" (1978). Entretanto, Beatriz não busca apenas prazer, mas vai além, abandonando seu corpo aos caprichos de Marcelo, ainda que isso signifique submeter-se a toda espécie de violência.

Segundo os realizadores, a proposta era abordar uma relação de dominância e submissão, que dentro da psicologia e psiquiatria é conhecida como "loucura a dois"(folie à deux), uma espécie de transtorno compartilhado, de aceitação total dos delírios de uma das partes pelo outro. Contudo, esse tipo de psicopatia ficcionalizada no fllme mostra uma inversão de papéis, já que a personagem título não se mostra tão fragilizada, fraca ou com menor auto-estima. Ela aceita o jogo para se tornar àquela quem controla a relação. 

Apesar de algumas boas tomadas e movimentação de câmera mais elaboradas, o longa mais parece um telefilme. A narrativa é bastante verborrágica e o diretor abusa dos primeiros planos em detrimento da encenação e de um enquadramento mais cinematográfico. A decisão pela montagem alternada, da rotina do casal e dos ensaios da adaptação teatral do texto de Marcelo, causa alguns problemas de ritmo, que pode cansar o espectador. 

Ainda que a ideia fosse aproximar o filme da palavra, numa metáfora ao ofício do personagem Marcelo (Sérgio Guizé), perdeu-se a oportunidade de explorar a linguagem cinematográfica e realizar um filme mais visual e menos literário. 

Elisabete Estumano Freire.


Dumbo (2019)

Dumbo, dirigido por Tim Burton, traz a clássica história do doce filhote de elefante, com orelhas gigantes, que consegue voar. A nova adaptação cinematográfica é comemorativa do aniversário de 78 anos da animação original da Disney.

Na versão live-action, o elefantinho nasce no circo de Max Medici (Danny DeVito) e é logo rejeitado, sendo encarado como uma aberração da natureza. O filhote é separado da mamãe Dumbo e fica sob os cuidados das crianças Milly (Nico Parker) e Joe (Finley Hobbins), filhos do cowboy Holt Farrier (Colin Farrell), que retorna do front de batalha da Primeira Guerra Mundial. 

Milly e Joe se apegam ao filhotinho e acidentalmente descobrem que Dumbo pode voar. A informação não é levada à sério pelo pai das crianças. Entretanto, durante uma apresentação do circo, num momento de perigo, Dumbo termina revelando suas habilidades com a ajuda de Milly, uma menina que sonha em ser cientista. 

O fato inusitado repercute na cidade e acaba chamando a atenção do empresário do entretenimento, V.A. Vandevere (Michael Keaton), proprietário da Dreamland, "a terra dos sonhos," um luxuoso parque de diversões. Após propor sociedade nos negócios do circo, Vandevere convence Max Medici a levar toda a sua trupe e Dumbo para Dreamland. 

O local, cheio de atrações e belezas, também esconde um lado obscuro. Dumbo se torna a grande atração do parque e é escalado para contracenar com Colette Marchant (Eva Green), acrobata e a estrela da Dreamland. Na estreia de Dumbo e Colette, uma mudança de planos de Vandevere e a revelação de um mistério muda o rumo dos acontecimentos.

Tim Burton reconfigurou a história original, construindo uma narrativa não apenas do ponto de vista de Dumbo, mas a partir de personagens humanos. Há drama, vilania, ganância, amor e solidariedade. A jornada do filhotinho de elefante, obrigado a se separar de sua mãe, tem relação direta com os interesses do capital, representados pela figura de V.A. Vandevere (Michael Keaton). 

O filme está ambientado numa época de transição, que começa no final do século XIX e início do século XX. O surto de gripe espanhola que matou milhares no mundo todo e a dura realidade dos campos de batalha, na Primeira Guerra Mundial, deixaram marcas e sinalizavam o fim de uma era. O circo de Max Medici representa o romantismo dos circos mambembes e a Dreamland, a introdução de uma visão capitalista da indústria do entretenimento. 


Tim Burton transpôs essa nostalgia para a telona, criando uma atmosfera visual de magia e rara beleza. As cores, a luminosidade, o figurino, a direção de arte, tudo é grandioso em Dumbo. O cenário e os elementos que compõem a cenografia são surpreendentes. O cineasta construiu uma grande estrutura no set de filmagem para representar Dreamland, com artistas circenses reais. 
Burton optou por não explorar muito os dramas dos personagens humanos, como a do desertor Holt Farrier (Colin Farrell), mas se concentrou na história de Dumbo. O longa apresenta um bom ritmo e a montagem sonora reforça a magia do elefante que voa, trazendo emoção aos grandes momentos do filme.
O live-action de Burton não é somente a história de superação de um filhote que sofreu rejeição e bullying por ser diferente dos demais. É um filme que chama a atenção para questão dos maus tratos e abusos de animais em espetáculos circenses. Também reforça o discurso ambientalista de preservação das florestas e reservas ambientais, e de que os animais devem ser mantidos fora do cativeiro, vivendo livres em seu habitat natural. 

Elisabete Estumano Freire.







Pastor Cláudio


Lançado no mês que se completa 55 anos do Golpe que deu início à Ditadura Civil-Militar no Brasil (1964-1985), o filme "Pastor Cláudio", da documentarista Beth Formaggini, mostra o encontro entre o ex-delegado do DOPS, Claudio Guerra, Eduardo Passos, psicólogo e ativista dos Direitos Humanos. Guerra, atualmente pastor de uma igreja evangélica, foi responsável por assassinar e incinerar corpos de opositores de partidos de esquerda durante a Ditadura Civil-Militar no Brasil,  enquanto Eduardo Passos trabalha no atendimento às vítimas de violência no Estado.

Em 76 minutos de filme, Claudio Guerra, hoje aposentado e beneficiado pela Lei da Anistia (1976), revelou não somente como eram praticados os assassinatos e ocultação dos cadáveres de presos políticos, mas falou sobre os bastidores da política de um Estado terrorista e de extrema direita. 

A diretora Beth Formaggini criou um dispositivo fílmico interessante, em que vai ilustrando com imagens não somente as fotos dos assassinados e desaparecidos políticos, mas também vídeos e documentos. Deste modo, ajuda a compor o cenário dos eventos revelados por Cláudio, captando sua reação diante de suas vítimas.

Em 2012, o ex-delegado concedeu depoimento aos jornalistas Rogério Medeiros e Marcelo Netto que resultou no lançamento do livro "Memórias de uma guerra suja". A partir da obra, a cineasta conseguiu esclarecer o caso de 19 desaparecidos políticos, integrantes do Partido Comunista do Brasil (PCB), executados pela Operacão Radar (1973-1976). 


O documentário é resultado da investigação que Beth Formaggini vem desenvolvendo sobre as vítimas da ditadura no Brasil. A cineasta já havia lançado o documentário "Memórias para uso diário" (2007) sobre o Grupo Tortura Nunca Mais. Em 2015, Beth decidiu ir para Vitória (ES) junto com Eduardo Passos para realizar a entrevista com Claudio Guerra.

O longa apresenta dados que chocam o espectador, com a frieza dos relatos e extensão das ações de extermínio dos dissidentes políticos. Nele, Pastor Claudio revela mais informações sobre atividades terroristas no país, como a tecnologia da tortura nos aparelhos do Estado financiada por empresários, ainda em atividade. Fala também sobre perseguições, perdas, temores e garantias pessoais. 

O documentário  venceu o prêmio de melhor filme no Festival de Vitória (2018) e participou dos seguintes festivais: Festival Internacional de Cinema Documental (Equador, 2018); Festival Kinoarte de Cinema 2018; da mostra Brasil em Movimento (França, 2018); Festival Internacional de Mulheres no Cinema - FimCine 2018; Festival do Rio 2017; Festival de Havana 2017; Festival Internacional de Filme Documentário do Uruguai - Atlantidoc 2017; Forum Doc BH 2017 ; e do Festival Internacional Pachamama (Acre, 2017). 

O filme é uma produção da 4Ventos Comunicação com distribuição da ArtHouse.



Elisabete Estumano Freire.