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Verão (Leto)



Baseado na biografia de Vicktor Tsoi, líder da banda Kino, uma das pioneiras do rock russo, o filme "Verão" (Leto) é o retrato da censura soviética em plena Guerra Fria. Ambientado na Leningrado dos anos 1980, o longa dirigido por Kirill Serebrennikov, apresenta a importância cultural do rock underground como contestação política na União Soviética.

Numa época em que jovens músicos sonhavam com a liberdade de expressão, o Clube do Rock, em Leningrado, era um dos poucos espaços disponíveis para os artistas se apresentarem. Fãs de artistas como David Bowie e Bob Dylan, que representavam a cultura ocidental capitalista, os jovens músicos soviéticos buscavam mostrar seu talento, driblando as dificuldades impostas pela forte censura do governo comunista. O filme mostra o surgimento da banda Kino e a relação triangular de Vicktor Tsoi (Teo Yoo) com Mike Naumenko (Roman Bilyk), líder da banda Zoopark, e sua esposa Natalia (Irina Starshenbaum).

Com uma narrativa experimental, que mistura o videoclipe e o grafismo, sinalizando situações imaginárias que beiram o sonho, a violência, o irreal e o possível, o filme conduz o espectador a despertar do jogo cinematográfico através da música e da quebra da quarta parede. Através da figura de um personagem-narrador, que pontua e interfere no ritmo do filme, somos levados a questionar a veracidade dos acontecimentos apresentados. E  a refletir que, dentro do pacto cinematográfico, verdades e mentiras se entrelaçam.  


O cantor e compositor Viktor Tesoi foi um dos responsáveis pela popularização do rock em território russo. Com a abertura política da Glasnost, o sexto álbum da banda, Bloody Type (Grupa Krovi), em 1987, com letras de cunho mais político, desencadearia a "Kinomania" na Ex-URSS. Sua primeira aparição no cinema foi no longa Assa (Acca, 1987), de Sergei Solovyov, junto com outras bandas de rock. No ano seguinte, estrelou como protagonista no filme The Needle (Igla, 1988), dirigido por Rashid Nugmanov.  Tesoi morreu num grave acidente de carro em 1990, aos 28 anos. Naumenko, responsável pela adaptação do rock ocidental à cultura russa, morreria no ano seguinte, aos 36 anos, vítima de hemorragia cerebral, em consequência de uma fratura na base do crânio, numa suposta tentativa de assalto, não confirmada.

Com um roteiro polêmico, o filme foi duramente criticado por músicos e pessoas ligadas à Banda Kino. Em julho de 2017, as filmagens começaram em São Petersburgo. Em agosto, o diretor Kirill Serebrennikov foi preso e deportado para Moscou com acusações de fraude, e depois colocado em prisão domiciliar. Atendendo às várias proibições do Tribunal, ele conseguiu finalizar o filme, em fevereiro de 2018. Selecionado no Festival de Cannes, "Verão"(Leto) ganhou o prêmio de melhor trilha sonora. 

Elisabete Estumano Freire



"O Processo" (2018)


Dirigido por Maria Augusta Ramos, o filme "O Processo" é uma reflexão sobre o processo jurídico-político que resultou no afastamento da Presidente Dilma Roussef, a primeira mulher eleita pelo voto popular a ocupar o mais importante cargo do Poder Executivo Brasileiro. 


Sem interferir diretamente no objeto de sua observação, durante as filmagens, adotando o estilo do documentário direto norte-americano de Robert Drew ("Primárias",1960), a câmera de Maria Augusta Ramos acompanha os atores principais, da acusação e da defesa. O longa registra o dia a dia dos corredores do poder, apresentando os bastidores do Congresso Nacional, as discussões políticas e jurídicas em torno do processo, assim como a espetacularização da mídia, a repercussão internacional e a reação popular, mostrando um país dividido politicamente. 


"O Processo" é a continuação de uma proposta da cineasta em realizar filmes que possibilitem a reflexão sobre a relação do Poder Judiciário e a sociedade. Entre seus trabalhos mais conhecidos, a trilogia "Justiça" (2004), "Juízo"(2007) e "Morro dos Prazeres" (2013), além de "Futuro Junho"(2015), premiados em festivais no país e no exterior. Seus documentários mostram as relações humanas diante da força coercitiva dos aparelhos do Estado, que atuam de maneira mais incisiva sobre a população carente e marginalizada. Evidencia também a desigualdade entre as classes, a atuação da polícia, a criminalização de jovens infratores, o cotidiano das favelas, a atuação dos movimentos sociais e a luta dos trabalhadores. 

A ÉTICA NA APRESENTAÇÃO DOS ARGUMENTOS DA DEFESA E ACUSAÇÃO 


No documentário sobre o processo de impeachment da presidenta Dilma Roussef, percebe-se um esforço da cineasta em contemplar as diversas narrativas políticas, tanto da Esquerda quanto da Direita. Ainda que tenha tido mais acesso às reuniões internas da bancada do PT e da equipe dos advogados de defesa, Maria Augusta também acompanhou a movimentação dos políticos oponentes ao governo petista e à acusação, principalmente na figura da advogada Janaína Paschoal. 
O longa, além de ser um registro histórico dos acontecimentos políticos, revela a crise das instituições democráticas no país, a influência das bancadas religiosas no Congresso Nacional e a disputa pelo poder entre grupos antagônicos. Num contexto em que o governo petista estendia para o quarto mandato frente à presidência da República, a reação da oposição foi violenta. Sem apoio na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, o governo de Dilma Roussef se tornou alvo das acusações de crime de responsabilidade.


Quase de maneira didática, o documentário finalmente faz entender a inconsistência do teor da denúncia, que chamou de operações de crédito a política de subvenção econômica relativa ao Plano Safra, programa federal de apoio à produção agrícola, acusando a presidenta Dilma da prática de "pedaladas fiscais".  E ainda, a alegação de crime de responsabilidade pela edição de seis decretos de crédito suplementar, no exercício de 2015, que estariam supostamente em desacordo com a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Entretanto, tais decretos além de serem expressos por autorização legal estavam estritamente de acordo com o cumprimento da meta fiscal, sem aumentar as despesas da União, como esclareceu o advogado de defesa (AGU), José Eduardo Cardozo.

CRONOLOGIA E REPERCUSSÃO DOS FATOS

Para além das discussões legais e técnicas, o filme traz a cronologia dos fatos, decorrentes do recebimento da denúncia pela Presidência da Câmara. A admissibilidade da abertura do processo de impeachment era uma retaliação publicamente anunciada do então Deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) contra o partido do governo. Réu em três processos, todos ligados às investigações da "Operação Lava Jato" da Polícia Federal, Cunha não havia obtido o apoio do PT para impedir sua cassação no Conselho de Ética.

O documentário enfatiza a pequena repercussão internacional do processo de impeachment, à época ofuscado pelas notícias dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Também apresenta a inércia dos governos estrangeiros que não haviam se pronunciado oficialmente sobre a crise política brasileira. Destaca ainda o papel da imprensa, o cotidiano das coletivas e a guerra de informações sobre denúncias da "Operação Lava Jato" envolvendo os principais atores políticos. 


O filme também revela um posicionamento de autocrítica do Partido dos Trabalhadores, mostrando os erros cometidos no Poder, sem conseguir dialogar diretamente com grande parcela da população. A falta de comunicação com os anseios da sociedade, o distanciamento dos movimentos sociais e o isolamento político propiciaram a grave crise que o partido já vinha enfrentando, culminando no processo jurídico-político de impeachment da presidente Dilma Roussef, ainda que sem os indícios e materialidade  do crime de responsabilidade. 

A LINGUAGEM DOCUMENTAL E A ALUSÃO À OBRA DE KAFKA


A dialética presente na construção fílmica, mostrando a manifestação dos dois lados políticos, é fator preponderante na narrativa de "O Processo". A montagem é feita com esta preocupação, sem  abrir mão dos respiros e certos alívios cômicos, mantendo o ritmo e o interesse do espectador. A documentarista também optou por não incluir trilha musical, nem narrativas em off. 

O filme é pontuado por cartelas, com informações sobre as etapas do processo, o uso de áudios de arquivo e som direto, captando os bastidores do Congresso e a musicalidade das ruas. Apesar de adotar as diretrizes conceituais do cinema direto norte-americano, de intervenção mínima, o recorte escolhido pela documentarista evidencia o processo criativo na apropriação do real, e o empenho em apresentar os diferentes discursos, sem abdicar do seu posicionamento político. 

"O Processo" é resultado de um trabalho minucioso de montagem, reduzindo cerca de 450 horas de filmagem em 2h17 minutos. Apesar de abordar um tema espinhoso e complexo, Maria Augusta e sua equipe mostraram o que a imprensa hegemônica brasileira não fez: apresentar os fatos e fundamentos jurídicos do argumento da defesa, que demonstravam a nulidade do recebimento da denúncia, os vícios procedimentais e a ausência de conduta criminosa, ilícita ou culposa por parte da presidente Dilma, que ensejaria a extinção do processo de impeachment.


A escolha do título é de uma precisão jurídica e singular, já que faz alusão a obra homônima de Franz Kafka. O autor tcheco, de origem judia, formado em Direito e integrante da Escola de Praga, possui um olhar pessimista sobre o Poder Estatal e a opressão burocrática das instituições. Ele critica o sistema jurídico, a representação da Justiça e o Estado de Direito. Em "O Processo", o personagem Joseph K. é funcionário de um banco, sendo acusado num processo misterioso, arbitrário, e condenado de pronto, sem ter cometido crime algum. A forma se sobrepõe à substância, numa acusação sem materialidade. 


Adaptado para o cinema na década de 1960, a obra de Kafka chega às telonas pelas mãos de Orson Welles. O filme de ficção é contemporâneo das discussões sobre o acesso à justiça, numa época em que Hollywood não tinha se recuperado do terror do Macarthismo, de violações de direitos civis e perseguições políticas contra simpatizantes de esquerda, durante o período da Guerra Fria. 

Analogamente, o documentário de Maria Augusta Ramos retoma o título para mostrar a arbitrariedade na condução do processo jurídico-político de impeachment da presidente Dilma Roussef. Como um jogo de cartas marcadas, mostra que o rito processual foi colocado acima da substância da matéria jurídica para atender a interesses políticos e promover a destituição de uma mulher, reeleita a Presidente da República, por sufrágio popular, com mais de 54 milhões de votos. 

O FUTURO DO BRASIL


O filme aponta as primeiras consequências após o afastamento da presidente Dilma Roussef. O agravamento da crise social, como corolário da crise política, na retirada de direitos dos trabalhadores. As previsões e denúncias da bancada do PT sobre a condução na nova política governamental se concretizam. O governo de Michel Temer, que deu prosseguimento à reforma trabalhista e ao encaminhamento da reforma previdenciária, foi protegido pela maioria da Câmara, que votou pelo arquivamento do processo de corrupção passiva denunciado pelo procurador Rodrigo Janot. Enquanto isso, a perseguição às lideranças da esquerda continuam, culminando com a prisão do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva

Premiado nos mais importantes festivais de cinema documental na Espanha (Festival Documenta Madri), Portugal (Festival Indie Lisboa), Suíça (Festival Vision du Reel) e Alemanha (Berlinale), o filme "O Processo" vem conquistando o reconhecimento internacional. O documentário de Maria Augusta Ramos além de revisar a história política recente do país, é um trabalho de preservação da memória nacional, revelando o outro lado da história, que a imprensa hegemônica preferiu abafar, agravando as diferenças e provocando o acirramento da polarização política da sociedade brasileira.  

Para ler nossa crítica sobre a ficção "O Processo" de Orson Welles, uma adaptação da obra de Franz Kafka, é só clicar no link a seguir: http://www.cabinedecinema.com/2017/02/o-processo-1962.html

Elisabete Estumano Freire.



Sinopse:
"O Processo" oferece um olhar pelos bastidores do julgamento que culminou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 31 de agosto de 2016. O filme testemunha a profunda crise política e o colapso das instituições democráticas no país.

Ficha Técnica:
Direção e Roteiro: Maria Augusta Ramos
Direção de Fotografia: Alan Schvarsberg
Som: Marta Lopes
Montagem: Karen Akerman
Edição de Som: Bernardo Uzeda
Mixagem: Gustavo Loureiro
Direção de Produção: Paula Alves
Produção Executiva: Maria Augusta Ramos
Uma Produção de: Nofoco Filmes
Uma Coprodução de: Autentika Films, Conjin Film e Canal Brasil
Ditribuição: Vitrine Filmes