Se eu fosse você (2006)


Um dos clichês da comédia mais repetidos do cinema e da tv, a troca de corpos tem sempre um forte apelo popular na cultura ocidental contemporânea. Hollywood já produziu diversos filmes que abordam o tema em suas mais variadas versões: troca de gênero e reafirmação (ou não) da sexualidade; troca de papéis entre pais e filhos; inversão de valores e posições sociais, que refletem as diferenças dos indivíduos, e os comportamentos esperados pelo conjunto da sociedade inserida numa cultura hegemônica e predominantemente heterossexual. O cinema nacional também copiou esta fórmula clicherizada que, apesar de desgastada e banal, ainda tem gerado bons resultados de bilheteria. 


O nacional “Se eu fosse você” (2006) é outro filme clichê da troca de corpos. Dirigido por Daniel Filho, estrelado por Gloria Pires e Toni Ramos, foi a maior bilheteria de 2006, atraindo 3,6 milhões de espectadores. O sucesso rendeu uma continuação “Se eu fosse você 2” (2009),   que se tornou o segundo filme mais visto do cinema pós retomada (1995-2012), com 6,1 milhão de espectadores, ficando atrás somente do megassucesso Tropa de Elite 2 que obteve um público de 11,1 milhões.

Apesar do desempenho nos cinemas, o longa desanima bastante. Claudio (Toni Ramos) e Helena (Glória Pires) parecem ser o casal perfeito. Bem sucedidos financeiramente, ele é sócio de uma importante agência publicitária e ela uma professora de música que rege um coral infantil.  Ele esconde à mulher que a agência está passando por crises financeiras e que está sendo pressionado pelo sócio Marcos (Thiago Lacerda) a vendê-la para uma grande firma de São Paulo. Ela é insegura quanto ao relacionamento com o marido, faz terapia e sofre por ser a conciliadora das crises familiares, sendo aconselhada pelo psicanalista a “desenvolver mais seu lado masculino”. Numa noite, em que ocorre um alinhamento de corpos celestes, durante uma discussão, os dois falam a mesma frase juntos “se eu fosse você..”, acionando o evento extraordinário. Na manhã do dia seguinte ocorre a troca de corpos.

Não há nenhuma novidade na história a não ser um desfile de lugares comuns: a dificuldade masculina de usar salto alto, se vestir e passar pelo período menstrual; a dificuldade feminina na troca de corpos de ir ao banheiro e de encarar o mercado de trabalho competitivo masculino; a sogra e o genro que se detestam; os homens que se vangloriam das conquistas femininas; a secretaria Cibele (Daniele Winits) que exibe os seios para se manter no emprego; as mulheres fálicas que são bem sucedidas no mundo empresarial; o reconhecimento da troca de corpos entre Claudio e Helena pela amiga Dra. Cris pela simples cantoria de uma música que ambas cantavam na adolescência, enfim...se o roteiro não ajuda, por outro lado os atores não convencem nos papéis trocados e forçam o esteriótipo jocoso do homossexualismo, reforçando imagens mentais preconceituosas. Claudio no corpo feminino, mesmo sem saber de música, é criativo e bem sucedido perante o coral. Por outro lado, Helena no corpo masculino continua apresentando um comportamento dependente do marido e não consegue realizar a nova campanha da agência sem ajuda.

O roteiro não trabalha com mais profundidade a questão da orientação sexual e da bissexualidade, nem ao menos as questões sociais. Pelo contrário, o filme só corroborou uma visão machista e estereotipada dos papéis sociais do homem e da mulher.

Mas o que leva o público a continuar consumindo este tipo de produto cinematográfico carregado de lugares comuns, clichês e estereótipos? Qual o significado da fantasia da troca de corpos (e de identidade) no consciente coletivo? Podemos tentar buscar algumas respostas através da psicanálise e da sociologia.

A troca de corpos na cinematografia é a experiência do outro, do novo e do desconhecido. Reflete o desejo de mudança, da busca por novas possibilidades, de transgredir as regras do jogo. É a troca de identidade, de papéis sociais, da diferença de gênero, e em alguns casos, da revelação da bissexualidade. Uma negação dos papéis pré-estabelecidos pela sociedade, aliado ao desejo de possuir o outro, ser o outro ou ser possuído por ele. Ao mesmo tempo, a realização do desejo é sempre temporária e causa frustração, trazendo vários problemas para os indivíduos diretamente envolvidos. Mais que um clichê, é um artifício ficcional que também revela um discurso político ideológico (por que não?) de manutenção do status quo, portanto, bastante condizente com a ideologia do sistema capitalista.


Geralmente as personagens envolvidas na troca apresentam conflitos entre si e explanam o desejo mútuo de viver a vida do outro, nem que seja por um pequeno intervalo de tempo. Normalmente, a troca de corpos acontece após o acontecimento de um evento extraordinário, como o emparelhamento de corpos celestes, uma data ou dia ligado à superstição, como a sexta-feira 13. Pode ocorrer quando as personagens falam ao mesmo tempo a mesma frase diante de uma entidade mística, ou na presença de um objeto fetiche, como brincos, ou religioso, como um amuleto, vaso ou qualquer outro símbolo ligado a uma cultura antiga. Também pode ocorrer pela direta intervenção de um poder divino. Quando as personagens reconhecem que trocaram de corpos, após o momento de medo e êxtase do confronto com o desconhecido, temos a revolta, a tentativa de retorno a uma situação anterior e a adaptação. É o momento da descoberta sobre a experiência do outro, da mudança de papéis, do confronto do sujeito com o real, e finalmente, do retorno em direção ao próprio eu. Quando a troca é finalmente desfeita ocorre o momento da reconciliação entre as personagens.

Como ideologia, o filme clichê traz uma visão de mundo, uma representação do cotidiano, de psitacismo, modelos simplificados das relações sociais e da divisão de classes.  No caso dos filmes de troca de corpos é lugar comum: o conflito entre gerações (pais que trabalham em excesso, verdadeiros workaholics, autoritários, que não têm tempo para conversar com os filhos rebeldes que, por sua vez, não entendem os pais); a diferença social entre ricos e pobres; ocorrência de bullying na escola e disputa agressiva no mercado de trabalho; a diferença de gênero e a visão machista do papel do homem e da mulher na sociedade e no mercado de trabalho; a orientação sexual dos personagens; e o preconceito contra o homossexualismo. Entretanto, algumas produções surpreendem, tentando ir além do clichê, trabalham com questões mais profundas que se escondem por trás do lugar comum, enquanto outras não tem nada a acrescentar, sendo uma mera repetição do pensamento hegemônico vigente.

Elisabete Estumano Freire.




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Se eu fosse você (2006)
Duração: 1h48 min (Comédia)
Direção: Daniel Filho
Roteiro: Rene Belmonte, Iafa Britz
Estrelando: Tony Ramos, Glória Pires, Thiago Lacerda

Mais informações: IMDB - SE EU FOSSE VOCÊ (2006)
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