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NO MUNDO DO CINEMA

'Amigo Secreto' (2022), de Maria Augusta Ramos

 


Reavivar a memória dos acontecimentos políticos com um olhar crítico é fundamental para a permanência de uma sociedade democrática, principalmente quando se está em jogo o futuro do país. É isso que a cineasta e documentarista Maria Augusta Ramos faz em seu novo trabalho Amigo Secreto, um filme que é extremamente importante para ser visto e debatido neste ano eleitoral.

O longa apresenta um percurso cronológico, a partir de 2016, dos eventos que envolveram o modus operandi da Operação Lava Jato da Polícia Federal, coordenada intelectualmente pelo então juiz Sérgio Moro e o ex-Procurador da República, Deltan Dallagnol. A prisão do ex- presidente Luís Inácio Lula da Silva, às vésperas das eleições de 2018, e a ascensão de Jair Bolsonaro à Presidência da República é analisada a partir das revelações da Vaza Jato, uma série de reportagens publicadas pelo jornalístico The Intercept Brasil. 
 
Em parceria com o jornal El Pais, e outros veiculos da grande imprensa, as investigações do The Intercept Brasil escancararam os bastidores de uma política feroz de integrantes da extrema direita contra os governos de esquerda. E colocaram em evidência a importância do retorno do jornalismo investigativo, negligenciado por muitos veículos de comunicação que se tornaram meros reprodutores das instituições, sem questionar as informações repassadas e as intenções de seus interlocutores. 

A partir da análise dos jornalistas, juristas e advogados, a documentarista pontua as contradições e o direcionamento intencional nas investigações da Lava Jato, com a utilização indiscriminada e ilegal das prisões e delações premiadas. Também mostra o crescimento das manifestações contra as instituições democráticas, principalmente o ataque ao Poder Judiciário por simpatizantes do governo e pelo próprio Poder Executivo. Faz um paralelo com os acontecimentos históricos da ascensão da ideologia nazista, e registra a interferência norte-americana no governo e nas investigações da polícia federal brasileira, mostrando como a soberania nacional vem sendo atacada.


O documentário também chama atenção para aspectos de um novo modelo de política intervencionista não mais centrada no poder das armas e da implantação de regimes ditatoriais, mas que busca brechas no jurídico e no legislativo para manter o controle político, ideológico e financeiro do país. É o chamado Lawfare, ou seja, a utilização da lei ou dos procedimentos legais como arma de guerra política, em que o direito é usado pelos agentes do sistema para atingir o inimigo.


O longa também contextualiza os acontecimentos que afligiram a nação, como a aceleração da devastação na Amazônia e a  pandemia do Covid-19. Enquanto a nação sofria com a falta de recursos nos hospitais públicos, como oxigênio e respiradores, causando milhares de mortos, o governo federal e seus ministros reagiam com descaso e falta de gestão eficaz. A prioridade era atacar seus opositores políticos, as instituições democráticas e intimidar a sociedade e os jornalistas.


A documentarista Maria Augusta Ramos, que também é diretora de O Processo Morro dos prazeres,  filmes premiados internacionalmente em festivais em Berlim, Suíça, Portugal e Espanha, entre outros, apresenta em Amigo Secreto, um filme crítico que não analisa somente o momento político que vivemos, mas também retoma a discussão do papel da imprensa e da importância do jornalismo investigativo praticado com ética e comprometido em defender a democracia. É também um filme que nos faz refletir sobre a construção do pensamento jurídico, os perigos da degeneração do direito e seus discursos de legitimação, abalando os pilares das instituições democráticas. 

Elisabete Estumano Freire.






Sinopse 

Em 2019, a entrada do ex-juiz Sergio Moro no governo Bolsonaro e o vazamento de mensagens trocadas por ele com procuradores e autoridades abalam a credibilidade da Operação Lava Jato. Um grupo de jornalistas acompanha os desdobramentos do caso, enquanto o país mergulha em uma sequência de crises que começa a ameaçar a sua democracia. 

 

Com 

Carla Jiménez 

Regiane Oliveira 

Marina Rossi 

Leandro Demori 

 

Ficha técnica: 

Direção e roteiro: Maria Augusta Ramos 

Direção de fotografia: Diego Lajst 

Som direto: Fernando Akira 

Montagem: Karen Akerman 

Montagem adicional: Eva Randolph 

Direção de produção e pesquisa: Zeca Ferreira 

Edição de som e mixagem : Mark Glynne, Tom Bijnen 

Finalização e correção de cor: Jan Jaap Kuiper, Michiel Rummens 

Produtor executivo: Maria Augusta Ramos, Felipe Lopes, Ilja Roomans 

Produtores: Maria Augusta Ramos, Christian Beetz, Ilja Roomans, Silvia Cruz 

Uma coprodução: Vitrine FilmesZDF in association with ARTE  

Uma produção: Nofoco Filmes, GebroedersBeetz Filmproduktion, Docmakers 

Patrocínio: IREE, Grupo Prerrogativas 

Esse filme teve apoio de: Netherlands Film Fund e The Netherlands Film Production Incentive 

Apoio: Fenae, Trupe do Filme 



Nada a esconder



Dirigido por Fred Cavayé, o filme "Nada a esconder" (Le Jeu, 2018) é a versão francesa do longa italiano Perfetti sconosciuti (2016), uma comédia dramática de Paolo Genovese.


O filme narra o encontro de amigos que se reúnem para um jantar, durante um eclipse total da lua. No transcorrer da reunião, eles decidem realizar um jogo perigoso: todos deverão ler em voz alta qualquer tipo de mensagem recebida em seus respectivos smartphones e atender em viva voz as chamadas telefônicas. O resultado disso são revelações pessoais que envolvem intrigas, traições e preconceitos.

O longa original fez enorme sucesso e ganhou o David di Donatello, o oscar italiano, e o prêmio da crítica, Nastro D'Argento. Também levou o Globo de Ouro de 2016 na categoria melhor comédia, além de outros prêmios, como o de melhor roteiro no Tribeca Film Festival e no Bari Internacional Film Festival. A história, aparentemente simples, transformou-se num verdadeiro fenômeno mundial. Como a telenovela colombiana "Yo Soy Betty, La fea", o roteiro do italiano Paulo Veronese vem ganhando várias versões pelo mundo afora: espanhola, mexicana, chinesa, coreana, turca...enfim. Em cada remake, os diretores tentam imprimir seu toque pessoal, com ênfase ou não no aspecto fantástico do roteiro.

Na versão francesa, Fred Cavayé fez um excelente trabalho de direção de atores. Há uma ênfase no jogo de olhares e na postura corporal. Desde o começo da trama é possível perceber pequenos detalhes sobre a psicologia dos personagens. Há um cuidado em evidenciar alguns elementos cênicos, muito mais que na versão italiana. O diretor constrói uma narrativa repleta de pistas para os espectadores mais atentos, como uma espécie de indicador dos acontecimentos futuros. 

Destaque também para o trabalho da fotografia, a cargo de Denis Roudon,  e de edição, de Mickael Dumontier, em perfeita sintonia com o jogo cênico. Os enquadramentos e a movimentação de câmera revelam um olhar de observador à espreita, sem perder nenhum evento, sustentando uma atmosfera de mistério. 

No filme de Cavayé, os anfitriões do jantar são Marie (Berénice Bejo) e Vincent (Stephane de Grodt), que divergem quanto à criação de sua filha Margot (Fleur Fitoussi). Eles convidam os casais de amigos: Charlotte (Suzanne Clément) e Marco (Roschdy Zem), que possuem uma relação explosiva; o taxista Thomaz (Vincent Elbaz), recém casado com Léa (Doria Tillier); e o professor de educação física Ben (Grégory Gadebois) e sua misteriosa namorada.

À medida que o jogo vai avançando, os personagens vão revelando seus segredos. O mote do enredo: na era da tecnologia digital e das redes sociais, os celulares não são mais um inocente meio de comunicação, mas se tornaram quase como uma espécie de "caixa preta" das vidas dos indivíduos. São dispositivos eletrônicos que carregam a intimidade de seus proprietários.


A adaptação francesa aposta na sutileza das interpretações, mantendo a essência do original italiano. O aspecto fantástico está presente, mas não é o primordial neste filme. Diferente, por exemplo, da versão espanhola, de Álex de la iglesia, que explora o sobrenatural. O longa de Cavayé também é mais ambíguo e cheio de nuances, distinto da versão mexicana, de Manolo Caro, em que os conflitos são resolvidos de maneira mais seca e direta.   


Em Le Jeu podemos observar uma nítida linha de construção psicológica, em que os personagens estão separados por diferentes pontos de vista, padrões de comportamento e status social. Mais que um jogo, as situações revelam um humor ácido, mas também o drama pessoal por detrás das aparências. Destaque para as atuações de Berénice Bejo, Suzanne Clément, Stephane de Grodt e Grégory Gadebois.

As versões francesa, espanhola e mexicana podem ser encontradas na Netflix.


Elisabete Estumano Freire.






Dilili em Paris


Uma viagem no tempo da Bèlle Époque. O filme de Michel Ocelot, "Dilili em Paris" é a aventura de uma menina imigrante pela capital francesa. A narrativa, cheia de referências a personalidades de destaque das artes, das ciências e da política, também traz uma mensagem de luta contra a opressão, o racismo e o machismo. 

No início da narrativa, Dilili, uma menina nascida na tribo Kanak, original da Nova Caledônia, arquipélago localizado na Oceania, região ultramarina francesa, é vista como o elemento exótico pelos franceses. Cansada de ser objeto de observação, decide virar o jogo e ser ela quem investiga. Com a ajuda de seu novo amigo, Orel, um jovem trabalhador, ela começa a explorar a cidade e as pessoas. É quando fica sabendo das atividades criminosas dos "mestres do mal", uma misteriosa organização responsável pelo sequestro de crianças. Esperta e corajosa, a menina decide buscar o paradeiro das vítimas e seus algozes.

Juntos, os amigos partem para uma aventura descobrindo as belezas de Paris, mas também seu submundo. Nessa trajetória, Dilili vai conhecer os expoentes da cultura e da ciência na França do final do século XIX, percorrer os grandes centros culturais e de diversão, como os teatros, os museus e o cabaré Moulin Rouge.

Incorporando fotografias das paisagens parisienses como cenário da animação, Ocelot realiza um trabalho sofisticado. No imaginário de sua narrativa também reúne várias personalidades de época, como a professora, feminista e ativista política Louise Michel; a cientista vencedora do Nobel de física Marie Curie; o cientista e bacteriologista Louis Pasteur; os pintores Pablo Picasso, Claude Monet e Auguste Renoir; a cantora lírica Emma Calvet e até o aviador brasileiro Santos Dumont.

Apesar de fazer referência à Belle Époque, a história de Dilili é, na verdade, uma atual crítica social e política da França. Ao evidenciar o sentimento de rejeição que a criança sofreu por sua cor de pele, o animador também chama atenção para a crescente xenofobia contra imigrantes, principalmente aqueles oriundos do antigo império colonial.

Embora nascido na França, Ocelot passou a maior parte de sua infância na Guiné e conheceu bem essa realidade. Deste modo, o cineasta desenvolve não apenas uma história sobre choque de culturas, mas busca trazer uma reflexão sobre a questão da alteridade. Critica o olhar preconceituoso e a intolerância sobre o outro, aquele que é considerado o diferente pela cultura hegemônica.

O filme também questiona a concepção de uma sociedade machista que busca objetificar a mulher e desumanizá-la. Personifica em Dilili a voz da resistência, apesar de sua fragilidade de criança. A menina enfrenta o preconceito e desafia os perigos, ainda que esteja sob a constante mira dos "mestres do mal". 

"Dilili em Paris" é uma animação destinada não somente às crianças, mas também a jovens e adultos. 

Elisabete Estumano Freire.




Dilili em Paris (2018)
Direção: Michel Ocelot
Classificação etária: 10 anos. 

Betty em Nova Iorque



O seriado "Betty em New York" (2019), produzido pela Telemundo Global Studios, emissora televisiva norte-americana pertencente ao grupo de comunicação da NBCUniversal, é uma releitura sofisticada e atualizada da telenovela "Yo soy Betty, la fea" (1999) do Canal RCN da Colômbia. 

Ambientada em New York e Miami, nos Estados Unidos, a história de Betty segue os padrões da novela colombiana, mas não é totalmente fiel ao roteiro original, apesar de manter a storyline e pontuar situações importantes da trama de Fernando Gaitán. A versão da Telemundo é uma homenagem ao roteirista e produtor colombiano da RCN. que faleceu de infarto em 29 de janeiro de 2019.

O remake também é uma edição comemorativa dos 20 anos do fenômeno mundial "Yo soy Betty, la fea". A telenovela colombiana foi originalmente exibida no período 25/10/1999 a 08/05/2001, num total de 169 capítulos. Considerada a produção de maior sucesso do gênero, entrou em 2010 para o livro Guiness World Record, por ter sido transmitida em mais de 100 países, dublada em mais de 15 idiomas e com 22 adaptações. 


No Brasil, foi exibida pela primeira vez em sua versão original, pela RedeTV! entre 2002-2003, totalizando 342 capítulos, tornando-se a novela de maior audiência da história daquela emissora. Foi reprisada duas vezes: 2004-2006, em 332 capítulos, e em 2013, em 192 capítulos. A versão mexicana da Televisa, "La fea más bella", foi exibida no Brasil pelo SBT, em 2006. Dois anos depois, estreava no SBT "Ugly Betty". a primeira versão norte-americana, em formato de série. Entre 2009-2010, a TV Record produziu e exibiu a versão nacional, "Bela, a feia" estrelado por Gisele Itié e Bruno Ferrari. E finalmente, em 2020, o SBT lança no Brasil a versão da Telemundo como "Betty, a feia em N.Y", que também pode ser conferida no Canal Netflix, em modo streaming.

Elenco, personagens e roteiro

Para os fãs da novela colombiana, a comparação com a versão da Telemundo, principalmente na interpretação dos atores, é inevitável. A dupla Betty (Elifer Torres) e Nicolás (Maurício Garza) é quase adolescente, mas os personagens são mais empoderados. Ainda na primeira fase da história,  Betty já começa a se posicionar diante de Nacho (Gabriel Coronel) e Armando (Erick Elias), além de Daniel (Rodolfo Salas) e Marcela Valência (Sabrina Seara)Nicolás, por outro lado, utiliza-se de várias estratégias para defender sua melhor amiga de Armando e dos demais acionistas de V&M, além de dar um novo rumo ao seu relacionamento com Patrícia Fernandez (Sylvia Sáenz).

Nos primeiros capítulos é a atriz Elifer Torres, como Beatriz Aurora Rincón, quem carrega a trama. Sua atuação como Betty faz jus a interpretação da colombiana Ana Maria Orozco. Já a composição de Erick Elias como Armando Mendonza causa, inicialmente, certo estranhamento, sendo bem menos intensa que a de Jorge Enrique Abello. O ator, porém, vai aos poucos encontrando o tom de seu personagem. O mesmo ocorre com Sabrina Seara, na pele da personagem Marcela Valência, interpretada na versão original por Natália Ramirez.

Um dos grandes acertos de "Betty em N.Y." é, com certeza, Sylvia Sáenz como Patrícia Fernandez. Assim como Lorna Paz/Cepeda, Sáenz soube dar o tom cômico e dramático da personagem. É claro que a inesquecível interpretação da "peliteñida" de Lorna é inigualável, porém Sáenz não ficou atrás e fez um excelente trabalho como "pattycakes". Outro destaque é a atuação de Héctor Suárez Gomis na pele do egocêntrico estilísta Hugo Lombardi, interpretado originalmente por Julián Arango.
  
O remake traz outras novidades. Há variações nos dramas pessoais das integrantes do "Pelotón de las feas" ("Quartel de Las Feas"). O mesmo ocorre com a história de Daniel Valência (Rodolfo Salas) e Ricardo Calderón (Aarón Diaz). Na versão colombiana, o melhor amigo de Armando, Mário (Ricardo Velez), era mulherengo, manipulador e, ao mesmo tempo, cômico. Na versão Telemundo, Ricardo é mais sedutor, problemático e rivaliza com Daniel Valência em vilania.  

Em "Betty em NY" o folhetim de Fernando Gaitán ganha novas nuances, em conformidade com os tempos atuais. Há várias transposições: espacial, para a ilha de Manhattan e a cosmopolita Nova Iorque; temporal, relativa aos primeiros vinte anos do século 21, de um mundo globalizado, informatizado e interconectado pelas novas tecnologias da era digital e redes sociais; e comportamental, baseada numa perspectiva de visão de mundo dos personagens mais contemporânea, crítica e em consonância com a luta pelos direitos sociais, trabalhistas e de igualdade de gênero.

Técnica, cenário e narrativa


A Telemundo investiu alto na produção e pós produção para dar mais realismo ao projeto e uma qualidade de imagem cinematográfica. As filmagens em locações externas, como o heliporto, o Central Park, a estação de metrô de NY, a Wall Street e a periferia de Manhattan, localizam a história de Betty. Além disso, a construção de um gigantesco set, com riqueza de detalhes, realiza o contraste do luxuoso mundo da moda novaiorquino e o cotidiano suburbano de Betty, Nicolás e dos demais empregados da V&M.  

Desde que a versão colombiana foi ao ar, em 1999, o avanço das tecnologias digitais e o surgimento das redes sociais transformaram o cenário das relações humanas. 20 anos depois, os acontecimentos são noticiados em tempo real através da internet, os celulares viraram smartphones e tablets, a comunicação pessoal é feita através de aplicativos de mensagens como o Whatsapp e o Telegram, e a vida privada é publicizada através das redes sociais. No tempo do Facebook, Youtube, Instagram, do armazenamento dos dados em nuvem e dos crimes da internet, os eventos relacionados a história de Betty são adaptados a essa nova realidade. 


As mudanças comportamentais dos personagens evidenciam um novo olhar, em consonância com as demandas socioculturais da atualidade. Deste modo, a história de Betty apresenta uma narrativa mais crítica, questionando a falta de ética profissional,  o machismo, a intolerância, a prática do bullying, as relações abusivas e o assédio sexual. 

Na versão da Telemundo, há uma busca pela desconstrução de alguns estereótipos, principalmente em relação às personagens femininas, que são colocadas numa posição mais positiva e proativa frente aos conflitos. É o que acontece, por exemplo, com as personagens de Betty, Marcela, Sofia e Sandra. Conceitos como sororidade e protagonismo feminino também são evidenciados nas falas dos personagens.


As relações homoafetivas também são percebidas de maneira mais respeitosa. O personagem de Armando apresenta uma faceta menos machista e agressiva, principalmente ao que diz respeito a Patrícia Fernandez e Hugo Lombardi. Novos personagens e elementos são incorporados à trama, movimentando a dinâmica da narrativa de "Betty em N.Y", mesclando drama, romantismo, suspense e humor, além de dar novo frescor ao folhetim de Fernando Gaitán. 

Paralelo a produção da série, a Telemundo também realizou "Por detrás da câmera de Betty em N.Y.", mostrando os bastidores dos sets de gravação, a construção dos cenários, as locações externas e os recursos tecnológicos na produção e pós-produção. Com direção de Luís Manzo e Fez Noriega, a série teve como produtor executivo Marcos Santana. 


Uma homenagem aos atores e personagens de Fernando Gaitán

Para os mais nostálgicos, a Telemundo proporcionou uma singela e emocionante homenagem à versão original de "Yo Soy Betty, La Fea". O ator colombiano Jorge Enrique Abello fez uma breve participação especial em "Betty em N.Y". Foi o encontro, no presente, do passado e do futuro do personagem Armando Mendonza. Uma cena belíssima, representando uma quebra no espaço-tempo da diegese das duas produções. Um momento de grande simbolismo que mostra que a obra de Fernando Gaitán se eterniza na dramaturgia contemporânea.


Elisabete Estumano Freire.




BACURAU


Bacurau, novo filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, é uma alegoria da resistência do povo brasileiro e, principalmente nordestino, contra a opressão, o preconceito e o imperialismo estrangeiro. O longa, ovacionado nos principais festivais internacionais, foi vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes e do prêmio de melhor filme na Mostra CineMasters Competition do 37° Festival de Cinema de Munique (Filmfest München).

A história se passa num futuro distópico, porém não muito distante da realidade brasileira. Bacurau é um vilarejo do sertão nordestino onde falta tudo (remédios, alimentos, água, etc.), só não falta consciência política. Acostumados com a vida sofrida, esquecidos do poder público, os habitantes de Bacurau estão cansados das promessas eleitoreiras e não se deixam mais enganar. Unidos, eles criam uma rede de proteção para sobreviverem contra ataques externos. Entretanto, o vilarejo começa a ser alvo de uma onda de violentos e misteriosos crimes. 

Com um estilo que nos remetem às alegorias cinematográficas de Glauber Rocha, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles também utilizam o recurso da criação de um território imaginário como metáfora do Brasil. Em Terra em Transe (1967), o cenário é a província de Alecrim, capital de "Eldorado", fictício país atlântico, palco de um golpe de estado; em Bacurau (2019), na fictícia cidade do sertão nordestino, há uma tentativa feroz de aniquilamento de seu povo.

A narrativa é construída numa atmosfera fantástica, explorando o imaginário místico e sobrenatural do interior do país. O filme evidencia o uso das tecnologias de comunicação, o terrorismo e a desumanização das relações de poder. Coloca em pauta questões como dominação cultural e econômica, políticas imperialistas e ideologias racistas, mostrando um país dividido pela intolerância e preconceito regional. O roteiro enfatiza a resistência do povo que, mesmo oprimido, ainda encontra forças para lutar por sua dignidade e liberdade.

O longa possui uma tessitura singular, reunindo num mesmo projeto convenções de diferentes gêneros cinematográficos: da ficção científica ao drama rural, passando pelo suspense, filmes de cangaço e serial killer. A opção, na montagem, de fazer referências a obras icônicas da cinematografia é uma surpresa à parte. Por outro lado,  a trilha musical mistura diferentes ritmos e sons, trazendo a musicalidade do nordeste, além de incorporar o eletrônico e o pop internacional. 

O filme é uma coprodução Brasil-França (CinemaScopio do Recife; SBS de Paris), que reuniu um elenco internacional. Destaque para a atriz Sonia Braga, no papel da Dra. Domingas; Karine Teles como a forasteira; e o ator alemão Udo Kier (SuspiriaGarotos de ProgramaBerlin Alexanderplatzque interpreta o misterioso Michael. No elenco, temos ainda as presenças de Barbara Colen (Aquarius), Silvero Pereira, Thomas Aquino, Antonio Saboia, Rubens Santos e Lia de Itamaracá.

Bacurau abriu o Festival de Cinema de Gramado de 2019 e recebeu convites para ser exibido em mais de 100 festivais e mostras. Aclamado internacionalmente, teve os direitos de distribuição vendidos para 30 países, incluíndo salas de cinema, home vídeo e streaming para os EUA, Canadá, Reino Unido, França, Japão, Bélgica, Luxemburgo, Holanda, República Tcheca, Taiwan, em países da América Latina e Escandinávia. 

Elisabete Estumano Freire.

Simonal

Dirigido por Leonardo Domingues, a cinebiografia "Simonal" narra a trajetória de Wilson Simonal de Castro, um dos cantores brasileiros mais populares das décadas de 1960 e 1970.

O filme mostra o início da carreira, quando o cantor deixa a banda "Dry Boys" para trabalhar com Carlos Imperial. A partir daí, o artista conquista seu espaço e começa uma trajetória de sucesso, culminando com o célebre show no Maracanãzinho, em 1969. Transformado em garoto propaganda da Shell, a multinacional do Petróleo no Brasil, Wilson Simonal começa a dar os primeiros passos numa carreira internacional. 

Tudo parecia ir bem até que ele descobre estar falido financeiramente. É quando tem início o drama pessoal do artista. Simonal é acusado de ser o mandante do sequestro e tortura de seu ex-contador por agentes do Departamento de Ordem Política e Social - DOPS. O cantor é indiciado, preso e perseguido pela imprensa, ganhando a alcunha de "dedo-duro" da classe artística.
O longa de Domingues narra esta história controversa, tentando redimir o artista. Realizado com a colaboração de Max de Castro e Wilson Simoninha, filhos do cantor e responsáveis pela trilha sonora, a cinebiografia é uma espécie de desdobramento do documentário "Simonal - Ninguém sabe o duro que dei" de Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, que também contou com a participação de Leonardo Domingues, na pós-produção.
O diretor, que também assina o roteiro em parceria com Victor Atherino, faz um recorte no tempo, mostrando o auge e a derrocada de um ídolo da música brasileira. A cinebiografia não aprofunda no passado do personagem, mas tenta apresentar algumas nuances da psicologia do artista, retratado como um homem um tanto rude, porém narcisista e de grande talento. 
Considerado o primeiro showman brasileiro, o cantor possuía uma enorme presença de palco, sabendo como ninguém comandar a plateia. Dono de uma voz e de um carisma inigualável, Simonal soube se destacar no cenário artístico brasileiro. Tido como culpado por alguns e injustiçado por outros, a história de sua vida, desconhecida pelas novas gerações, é o retrato de uma época de medo, censura e violência política. 


Numa conjuntura de grande repressão, Simonal cantava a "pilantragem" e as maravilhas de ser brasileiro, praticamente ignorando a situação política do país. Esse tipo de postura para um artista de grande projeção nacional não era bem visto pelos que lutavam pela volta da democracia. Por outro lado, o filme enfatiza que o artista denunciava o racismo no Brasil e que o seu sucesso incomodava boa parte da crítica especializada, além do próprio DOPS.

O filme não aborda os últimos anos da vida do cantor, que tentou voltar aos palcos inúmeras vezes, mas foi simplesmente expurgado do meio artístico. A narrativa é construída no sentido de justificar as ações de Simonal no episódio que marcou o fim de sua carreira musical. Ele surge como alguém deslumbrado pelo poder que conquistou, vítima de sua própria arrogância, declarações infelizes e revolta. De origem humilde, o cantor não estava preparado para lidar com a fama repentina e com o mundo dos negócios. Sentindo-se traído e roubado, ele optou pelo politicamente incorreto, agindo por impulso e pela força, sem medir as consequências de seus atos. Esse foi o seu maior erro.

A interpretação de Fabrício Boliveira é poderosa, intensa. O ator consegue captar nuances da personalidade de Simonal, dentro e fora dos palcos. Ísis Valverde, que interpreta Tereza, a primeira esposa, também tem bons momentos e a química entre os dois atores funciona. Algumas cenas são fortes, como os conflitos entre o casal, resultado também de certas liberdades do roteiro. 

O filme apresenta uma narrativa circular, em flashback, pontuada por imagens de arquivo do Rio de Janeiro da década de 1960. A produção prima pelos detalhes, com direção de arte e figurino impecáveis, a cargo de Yurica Yamazaki e Kika LopesA fotografia de Pablo Baião tem dois momentos de destaque: dois planos-sequência muito bem elaborados, mostrando o apogeu e o ostracismo do artista.
Mesmo após a sua morte, em 2000, resultado de problemas com o alcoolismo, muitos mantém a tese de que o artista foi realmente delator. Em 2002, a pedido da família, a Comissão de Direitos Humanos da OAB realizou uma investigação nos arquivos nacionais concluindo que não há nenhum registro de que o ex-sargento do exército fosse colaborador dos órgãos de repressão da Ditadura Militar. Wilson Simonal foi moralmente reabilitado em julgamento simbólico, em 2003.

O filme conta ainda com o seguinte elenco: Leandro Hassum, Mariana Lima, João Velho, Caco Ciocler, Bruce Gomlevsky, Letícia Isnard, Silvio Guindane, e as participações de Rafael Sieg, João Sabiá, Lilian Menezes e João Viana, entre outros. 

Elisabete Estumano Freire.