YVONE KANE

"Yvone Kane" é uma coprodução Brasil/Portugal, dirigida pela portuguesa Margarida Cardoso e estrelada por Irene Ravache e Beatriz Batarda. O filme narra a jornada de mulheres em conflito com a história oficial, buscando desvendar a verdade através de narrativas orais e documentos extraoficiais. Também aborda a necessidade do sentimento de pertencimento, o preconceito e a violência contra a mulher, no contexto das lutas anticoloniais e do racismo.


Depois da morte da sua filha, Rita (Beatriz Batarda) retorna a Moçambique, onde viveu a infância com sua mãe, a médica e ex-ativista Sara (Irene Ravache), que atualmente trabalha num convento e está muito doente. Na juventude, Sara conheceu a guerrilheira Yvone Kane (Mina Andala), mulher que se tornou um símbolo nacional de independência daquele país. Entretanto, Rita desconfia da versão oficial sobre a morte da líder revolucionária e começa uma investigação particular para descobrir a verdade por trás da narrativa mítica.

O longa aborda a questão do pertencimento, da necessidade de se sentir aceito num território marcado pelo conflito interracial e pelas relações de dominação colonialista. A película apresenta essa tensão constante entre os personagens, que convivem com um certo estranhamento, decorrente do racismo. A ruptura dos relacionamentos é visível, ainda que se tente resgatar o que se perdeu no tempo. É o que acontece com as personagens de Sara e Rita. Entretanto, o recomeço só será viável para mãe e filha quando todos os segredos forem revelados.


Enquanto Rita (Beatriz Batarda) encontra barreiras para desvendar o mistério da morte da ex-guerrilheira, Sara (Irene Ravache) é surpreendida com uma denúncia de estupro coletivo envolvendo seu filho adotivo Jaime (Herman Jeusse) e alunas internas do convento dirigido pela Madre Superiora Rosário (Francilia Jonaze). Com o desaparecimento de Jaime, a tensão entre a freira e a médica só aumenta, expondo a difícil relação entre essas mulheres. Sara começa uma busca pelo paradeiro do rapaz e não terá descanso enquanto não esclarecer os fatos.


Com um ritmo mais compassado, a narrativa é centrada na dinâmica dos personagens, em que a contemplação e o silêncio em muitos momentos dão o tom dos conflitos internos. Aquilo que é dito é menos revelador do que o não dito. Na montagem desse quebra-cabeças, Rita e Sara são os vértices desse mistério. Se Rita precisa encontrar as respostas sobre Ivone Kane, Sara aguarda o tempo tentando aceitar o que a vida lhe trouxe. Destaque para a personagem da atriz brasileira Irene Ravache, que interpreta uma mulher que perdeu muito do encantamento da vida, mas por trás da aparente frieza e arrogância, esconde uma grande fragilidade. Depois de inúmeras lutas, ela persiste em seus ideais, acreditando até o fim nos princípios morais e no amor que transforma o ser humano.


O filme participou do Festival do Rio de 2014, além dos festivais internacionais de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Fé, Festival de Cinema das Noites Negras, 39º Guarnicê de Cinema (2016), e 17º Festival du Cinema Bresilien de Paris (2016), em que Beatriz Batarda foi premiada como melhor atriz.  O longa foi filmado em locações em Moçambique. É uma produção da Filmes do Tejo II, de Portugal, e MPC Filmes. Contou com o apoio financeiro do ICA - Instituto do Cinema e Audiovisual (Portugal), da Ancine (Brasil), da RTP Rádio e Televisão de Portugal e da Fundação Gulbenkian Calouste

Elisabete Estumano Freire.



`HUMAN FLOW - NÃO EXISTE LAR SE NÃO HÁ PARA ONDE IR`

O documentário "Human Flow", do cineasta e artista chinês Ai Weiwei, é um filme-denúncia sobre a tragédia dos refugiados, que atinge mais de 65 milhões de pessoas em todo o mundo. O maior deslocamento humano desde a Segunda Guerra Mundial.

Percorrendo 23 países, na Europa, Ásia, África e América, o cineasta mostra a odisseia dos refugiados, fugindo da guerra, da xenofobia e limpeza étnica, do fundamentalismo religioso, da difíceis condições climáticas e da miséria. Desde a travessia perigosa em alto mar, em embarcações superlotadas, até a jornada pelo deserto e em territórios militarizados, milhares de homens, mulheres, crianças e idosos arriscam a vida todos os dias, buscando uma nova chance do outro lado da fronteira. Ai Weiwei também acompanha o trabalho voluntário e governamental junto a essas populações, documentando o cotidiano nos campos de refugiados, onde muitos passam privações e todo tipo de violência e insegurança, sempre tentando manter a dignidade e a esperança.


O cineasta mostra a situação dos refugiados do Iraque e da Síria, em que milhares foram forçados a sair de seu país, após a invasão norte-americana. Aborda a crise na política internacional, em que a maioria dos países fecha suas fronteiras, não dando nem a possibilidade de passagem por seu território para chegar ao país de destino. Poucos são os governos que aceitam receber essas populações. Uma das exceções é a Alemanha, de Angela Merkel, o Líbano e a Grécia. Entretanto, com o fechamento das fronteiras muitos ficam presos no meio do caminho. Cerca de 13 mil esperam a reabertura da fronteira macedônica; 75 mil sírios estão retidos nos arredores da Jordânia; mais de 500 mil curdos foram desalojados; outros tantos milhões esperam sair de regiões de conflito, na Europa Oriental, Ásia e África. 


Esse e outros dramas dos refugiados são vistos de perto, como numa lupa. Apresentando dados jornalísticos extraídos das manchetes dos principais periódicos internacionais, o cineasta Ai Weiwei dá rosto e voz a essas populações. E denuncia a política de exclusão e deportação de vários países que não estão dispostos a respeitar os direitos humanos e cumprir a Convenção da ONU sobre refugiados (1951). E observa: em 1989, quando o Muro de Berlim caiu, sinalizando o fim da Guerra Fria, apenas 11 países tinham as fronteiras cercadas. Em 2016, esse número aumentou para 70. A situação só se agrava, mas as lideranças mundiais não parecem sensíveis ao problema humanitário. Ações xenofóbicas violentas contra os refugiados são cada vez mais frequentes, desalojando e expulsando essas populações. 


Mais que um documentário, o filme é um trabalho de reportagem que coloca em primeiro plano o sofrimento humano, alertando a gravidade da situação. O drama dos refugiados é consequência da crise mundial, que envolve todos nós. Ai Weiwei lança um olhar político, poético e filosófico sobre a condição dos emigrantes, mostrando que a questão precisa ser vista com mais atenção. Como formigas num formigueiro, os seres humanos estão interconectados, como numa cadeia ramificada, da qual todos fazemos parte. E conclui: submeter pessoas a condição permanente de refugiados é uma das piores violências que se pode cometer aos seres humanos. 

Todos deveriam assistir "Human Flow". Mais que um espetáculo cinematográfico, o documentário é um alerta ao mundo. Imperdível.

Elisabete Estumano Freire,




Dona Flor e seus dois maridos (2017)



Adaptado do romance best-seller de Jorge Amado, a nova versão cinematográfica de "Dona Flor e seus dois maridos", dirigida por Pedro Vasconcelos, é uma releitura do clássico nacional de 1976, com uma abordagem mais próxima da montagem teatral.

Protagonizado pelo trio Juliana Paes, Marcelo Farias e Leandro Hassum, com participação especial de Nívea Maria, o longa recupera a poesia do primeiro filme, com um olhar contemporâneo. Ambientado na década de 1940, na Bahia, a história narra a vida de Dona Florípedes (Juliana Paes), que durante o carnaval fica viúva do malandro Vadinho (Marcelo Farias). Após o período de luto, ela se casa com o farmacêutico Teodoro, homem respeitador e metódico. Entretanto, Dona Flor sente falta do primeiro marido, que retorna do além para atender aos desejos  carnais da jovem esposa.

O filme, em flashback, explora bastante o recurso da narrativa em primeira pessoa, com mais inserções em voz over da protagonista, relatando suas angústias e devaneios. A seleção de Juliana Paes para o papel foi uma ótima escolha. A atriz possui uma beleza brejeira, que lembra muito os encantos da atriz Sonia Braga, e encarna muito bem a personagem. Na versão cinematográfica de 2017, Flor avalia a performance sexual do marido, o que não acontecia no filme de 1976. Ela se ressente da inabilidade de Teodoro, o que a faz desejar um casamento que também a satisfaça na cama. A personagem de Juliana Paes verbaliza mais seu conflito entre a virtude de não trair o segundo marido, ainda que deseje ardentemente Vadinho.

É impossível assistir ao filme de 2017 sem lembrar das interpretações de Sonia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça. O trio Juliana Paes, Marcelo Farias e Leandro Hassum consegue manter o interesse do público, com um naturalismo que infelizmente não é acompanhado pelo resto do elenco, que parece estar interpretando para o teatro e não para o cinema. Essa abordagem da direção de atores, ainda que intencional, causa um certo estranhamento. Por outro lado, Pedro Vasconcelos buscou explorar mais o texto do escritor baiano, inserindo cenas inéditas que não aparecem no longa de Bruno Barreto, mas que dão um certo frescor e ineditismo na adaptação cinematográfica.

O Vadinho da nova versão é mais romantizado e menos cafajeste que no filme de 1976, interpretado por José Wilker.  Contudo, Marcelo Farias não decepciona, ficando bem à vontade na pele do malandro baiano, viciado em jogatina e mulherengo. Vale lembrar que o ator também deu vida ao personagem no teatro (2007-2012), sob a direção de Pedro Vasconcelos. No longa de 2017, a nudez de Vadinho é mais exposta, ainda que não totalmente explícita. Destaque  para a sequência do exorcismo no terreiro de candomblé, captando a beleza e o mistério do culto afrobrasileiro. 

Outra diferença é a tentativa de explorar a veia cômica do personagem Teodoro, escalando Leandro Hassum para interpretá-lo. O farmacêutico no filme de Vasconcelos é um tanto atrapalhado, desconstruindo a imagem austera dada por Mauro Mendonça. Metódico e nervoso, o personagem é carismático, mas algumas cenas são muito clicherizadas, prejudicando a performance de Hassum, que poderia ser melhor aproveitado.

Pra quem já viu na telinha o filme de Bruno Barreto (1976) e o seriado global de Mauro Mendonça Filho e Guel Arraes (1998), com Julia Gam, Edson Celulari e Marcos Nanini, é interessante conferir as novas nuances na narrativa da versão de 2017. Repleto de homenagens, incluindo uma performance à capela de "É doce morrer no mar", composição de Dorival Caymmi, o lançamento de "Dona Flor e seus dois maridos"  de Pedro Vasconcelos é uma boa oportunidade para o público conferir as boas interpretações de Juliana Paes, Marcelo Farias e Leandro Hassum do clássico de Jorge Amado na telona.

Elisabete Estumano Freire.


 

THOR: RAGNAROK

Após os sucessos de "Thor" (2011) e "Thor: o mundo sombrio" (2013), que juntos arrecadaram mais de 1.1 bilhão de dólares, os personagens do Universo Marvel estão de volta para defender o reino de Odin de seus inimigos. Dirigido por Taika Waititi, "Thor:Ragnarok" é o terceiro filme da franquia. Com roteiro de Eric Pearson, Craig Kyle e Christopher L. Yost, o longa é uma surpreendente aventura sobre o destino de Asgard e a profecia do Ragnarok, que na mitologia nórdica significa o final dos tempos. Com o peso da maldição sobre o Reino de Asgard e seu povo, caberá ao filho de Odin tentar impedir que ela se cumpra.


Quando Thor (Chris Hemsworth) é feito prisioneiro por Surtur (Clancy Brown), o demônio gigante de fogo, ele toma ciência da maldição de Ragnarok. Ao recuperar seu martelo, o Rei do Trovão consegue voltar para Asgard e se depara com uma nova realidade: O rei Odin (Anthony Hopkins) foi destronado por Loki (Tom Hiddleston). Thor desmascara o irmão e o obriga a encontrar seu pai, que revela a existência de Hela (Cate Blanchett), a primogênita, deusa da morte.  


Primeira vilã do universo Marvel, Hela foi renegada pelo pai que a expulsou de Asgard, depois das batalhas sangrentas pela liderança dos nove reinos. Apesar de ser uma criatura sinistra, com grande poder, a primogênita de Odin reivindica o trono a qualquer custo. No primeiro embate com os irmãos, ela destrói o martelo de Thor e os envia a um planeta distante, Sakaar, governado pelo Grande Mestre (Jeff Goldblum). Lá, Thor é feito prisioneiro e terá que lutar como gladiador até a morte.


Preso num reino distante, e sem seus poderes, Thor precisa encontrar uma maneira de impedir a destruição de Asgard e o domínio de Hela. Para isso contará com a ajuda de seus amigos, Hulk/Bruce Banner, da relutante Valquíria (Tessa Thompson) e do suspeito Loki, que conseguirá se posicionar como um importante aliado na reconquista de Asgard.
O longa de Taika Waititi revela um pouco mais da psicologia dos personagens: mostra um Thor mais consciente das artimanhas de Loki, que apesar das diferenças com o irmão, o ajuda a retomar o trono usurpado por Hela; Loki, por outro lado, revela seu lado divertido, como um rei feliz no início do filme, mas que irá atuar de acordo com as conveniências, apesar de suas aspirações ao trono; temos ainda Skurge (Karl Urban) como um jogador que vive um dilema moral em relação ao medo que tem de Hela e sua lealdade ao povo; o guardião Heimdall (Idris Elba), líder da resistência em território Asgardiano e fiel a Odin; e o professor e cientista Bruce Banner, que após dois anos vivendo em Sakaar como Hulk, começa a duvidar de si mesmo, acreditando não ter mais chances de retomar sua vida na Terra.
Em Ragnarok, o destaque é o elenco feminino. O trabalho de Cate Blanchett como Hela é maravilhoso. A atriz constrói uma personagem adorável, ainda que seja uma vilã. Ela é má e ao mesmo tempo divertida, mostrando toda sua insegurança diante do trono. Tudo o que a primogênita de Odin deseja é o reconhecimento dos argadianos e sua submissão. Temos também a personagem de Tessa Thompson, que rouba a cena como a catadora 142. Na verdade, uma ex-valquíria de Asgard, que trafica lutadores para a Arena de Sakaar. Ela encontra na bebida um bálsamo para tentar esquecer o passado de batalhas. A atração entre ela e Thor será evidente, já que ambos são guerreiros, e ela enfrentará novamente a filha de Odin. 
Apesar da profecia ser sinônimo de destruição e morte, "Thor: Ragnarok" é um dos filmes mais leves e divertidos da franquia. Com muita comicidade, incluindo a sequência com a participação do Dr. Estranho (Benedict Cumberbatch), o longa sabe dosar drama e humor, com muitas cenas de ação e verdadeiros videoclipes, numa espécie de ópera rock do espaço cósmico. 
"Thor:Ragnarok" tem produção de Kevin Feige, Louis D'Esposito, Victoria Alonso, Brad Winderbaum, Thomas M. Hamer e Stan Lee. 

Stranger Things



A nostalgia dos anos 1980 está de volta. A série original Netflix "Stranger Things" é um verdadeiro mix dos principais blockbusters do cinema norte-americano daquela década e vem conquistando os fãs de narrativas seriadas. Criação da dupla de roteiristas, os irmãos Matt e Ross Duffer, e dirigida por Shaw Levy, Andrew Stanton e Rebecca Thomas, "Stranger Things" tem um elenco infanto-juvenil extraordinário, além das presenças marcantes de Winona Ryder e David Harbour. 

O seriado parece juntar a magia de clássicos como "ET" e "Contatos imediatos do terceiro grau" de Steven Spielberg com "Guerra nas Estrelas" de George Lucas. Some-se a isso uma pitada de rebeldia adolescente de "Conta Comigo" (Rob Reiner), "Alguém muito especial" e "Gatinhas e gatões" (John Hughes). E um pouco de terror de "Poltergeist" (Steven Spielberg), "Alien" (Ridley Scott) e os filmes da franquia de "A hora do pesadelo" (Chuck Russel), entre outros.

Pense no seguinte enredo: Na década de 1980, numa cidadezinha tranquila do interior dos Estados Unidos, um grupo de pequenos amigos adoram passar o tempo estudando ciências e brincando com jogos de terror. Nos arredores da cidade, o governo financia pesquisas de caráter militar. Numa noite, um dos garotos desaparece misteriosamente. A cidade toda fica abalada. Com a demora da polícia em encontrar seu paradeiro, os amigos do garoto pensam em ajudar a polícia realizando sua própria investigação e descobrem segredos de Estado envolvendo estranhas criaturas.

Esse é o ponto de partida da primeira temporada (2016) de Stranger Things. Com oito episódios, o seriado explora a fantasia infantil, o medo do sobrenatural, a rebeldia da juventude, além do drama de relacionamentos adultos mal resolvidos. Misture tudo isto a um contexto político-militar: A Guerra Fria e o financiamento de pesquisas científicas de caráter duvidoso envolvendo crianças com poderes paranormais e monstros alienígenas. O objetivo: encontrar uma arma poderosa contra os soviéticos. 

Em novembro de 1983, em Hawkins, Indiana (EUA), o desaparecimento de Will Byers (Noah Schnapp) é envolto em um grande mistério. Perto da floresta, no laboratório nacional do departamento de energia da cidade, pesquisadores do governo federal realizam experimentos secretos. Numa noite, ao voltar para casa, o pequeno Will é perseguido por uma estranha criatura e desaparece. 

O delegado local, Chefe Hopper (David Harbour), começa a investigar o caso e descobre que o responsável pelos desaparecimentos é o próprio governo norte-americano. Os amigos do garoto, Dustin (Gaten Matarazzo), Mike (Finn Wolfhard) e Lucas (Caleb MacLauglin) decidem procurá-lo na floresta e encontram uma menina fugitiva, Onze/ El (Millie Bobby Brown). Ela possui poderes paranormais e quer ajudá-los. Ocorrem novos desaparecimentos e mortes. Os federais interferem no trabalho da polícia.

A história se desenvolve inicialmente em três núcleos de ação: a polícia local, na figura do chefe Hopper; a família Byers; e os amigos de Will.

Para Mike, Lucas e Dustin, o amigo foi capturado pelo demogorgon, uma estranha criatura dos contos de terror que vive no Vale das sombras. Através de Onze/El, a pequena menina paranormal, eles descobrem que Will está preso no mundo invertido. Apesar dos federais tentarem forjar a morte do garoto, eles sabem que o amigo está vivo numa dimensão alternativa.

Um dos grandes mistérios do seriado se concentra na força paranormal de Onze/El (Millie Bobby Brown). A garota, criada como uma cobaia humana, teme retornar para o laboratório. Ela é um elo entre os dois mundos (o real e o invertido) e possui poderes extraordinários, podendo deslocar objetos com a força do pensamento. Com Mike, Lucas e Dustin, a menina irá descobrir o valor da amizade e ter a experiência de uma vida normal.  

Com o desaparecimento de Barbara Holland (Shannon Purser), a jovem Nancy (Natalie Dyer) decide investigar o que aconteceu com sua amiga. Ela pede a ajuda de Jonathan Byers (Charlie Heaton), irmão de Will, causando ciúmes no namorado Steven Harris (Joe Keery). Através de Nancy, Jonathan começa a acreditar nos relatos de sua mãe Joyce (Winona Ryder), que afirma ter entrado em contato com o filho, através de energia elétrica, e visto o monstro que o levou.

Após saber que a CIA está envolvida no caso, o delegado Hopper (David Harbour) percebe que Joyce não está enlouquecendo. Junto com o filho Jonathan (Charlie Heaton) e Nancy (Natalie Dyer), eles descobrem a localização dos portais que os levam ao mundo invertido. Com a ajuda de Onze e dos garotos, Joyce e Hopper tentarão salvar o menino.

O seriado aborda os conflitos da infância e adolescência, com episódios de bullying, agressividade gratuita e filhos desajustados, com pais ausentes e casamentos em crise. Enquanto Nancy (Natalia Dyer), Steve Harrin (Joe Keery) e Jonathan (Charlie Heaton) vivem um confuso triângulo amoroso, os amigos de Will Byers são atacados por outros garotos da escola. 

O sucesso do universo de Stranger Things e todo o mistério do seriado se sustenta dentro da nostalgia de uma época pré-revolução digital. No início da década de 1980, a criançada ainda se divertia com bicicletas, fliperamas e walkie-talks. Apesar do sucesso dos primeiros computadores domésticos, no final dos anos 1970, eles eram limitados e utiizados por uma reduzida parcela da população, se comparados com o uso atual. Do mesmo modo, a comunicação era basicamente feita por telefonia fixa analógica. Se a mesma história fosse ambientada em pleno século XXI, na era dos smartphones e da internet, a informação e a comunicação entre pais e filhos seria mais eficaz e totalmente diferente da apresentada no seriado. 

Com uma trama envolvendo o universo infanto-juvenil, o sobrenatural e os poderes da mente, o seriado aprofunda a psicologia dos personagens, abordando a ética nos relacionamentos, nas ações governamentais e o papel da ciência e dos cientistas. Sem perder o rítmo, os episódios mantém o interesse, revelando peças de um grande quebra-cabeças. O mistério continua na segunda temporada.  

Elisabete Estumano Freire.


Blade Runner 2049


Dirigido por Denis Villeneuve, o filme é uma continuação de Blade Runner - o caçador de androides (1982) de Ridley Scott. Com roteiro de Hampton Fancher e Michael Green, é inspirado na obra Do Androids Dream of Electric Sheep? (1968), do escritor norte-americano Philip K. Dick

No primeiro Blade Runner, de Ridley Scott, no início do século XXI, empresas desenvolveram robôs inteligentes, mais fortes e ágeis que um ser humano. Eles eram chamados replicantes e foram enviados para trabalharem como escravos nas colônias extraplanetárias. Quando um grupo de replicantes mais evoluídos, da geração Nexus 6, provoca um motim, eles são condenados à morte. Um esquadrão de elite da polícia, conhecido por Blade Runners, é encarregado de executá-los. Na Los Angeles de 2019, um grupo de cinco replicantes retorna à Terra. Eles têm o objetivo de descobrir como prolongar sua longevidade, pois só vivem por um período de quatro anos. Rick Deckard (Harrison Ford), um ex-Blade Runner é acionado para caçá-los, mas termina se apaixonando por uma replicante,  Rachel (Sean Young).

De acordo com os curtas de pré-lançamento Blackout 2022, (Shinishiro Watanabe), e 2036: Nexus Dawn e 2048: Nowhere to run, ambos dirigidos por Luke Scott, filho de Ridley Scott, e o prólogo de Blade Runner 2049, os androides biológicos Nexus 6 foram substituídos por modelos da oitava geração, que tinham longevidade igual a dos humanos. Entretanto, devido as constantes rebeliões nas colônias extraplanetárias, eles também foram condenados à morte. 

Após o grande blecaute, em 2022, e a proibição da criação de novos modelos Nexus, a Corporação Tyrell foi à falência. Em 2036, o industrialista Niander Wallace (Jared Leto), que desenvolveu uma tecnologia de produção de alimentos e erradicou a fome na Terra, comprou os espólios da Tyrell Co. e conseguiu autorização para a produção limitada de uma nova geração de replicantes, totalmente submissos. 

Diegeticamente, O filme dirigido por Denis Villeneuve se passa trinta anos depois dos acontecimentos do longa original. Na Califórnia de 2049, o agente KD6 3.7 (Ryan Gosling) é um modelo Nexus da nova geração que integra o esquadrão Blade Runner. Em sua missão de eliminar os últimos remanescentes Nexus 8, ele encontra uma misteriosa caixa enterrada numa fazenda distante, administrada por Sapper Morton (Dave Bautista).

Morton, que é na verdade um replicante da geração Nexus 8, fugitivo dos campos de Calantha, esconde um segredo que pode abalar a aparente harmonia entre humanos e androides. Para desvendar esse mistério, a Tenente Joshi (Robin Wright) ordena que o agente "K" investigue o caso, que o leva até o nome do policial Rick Deckard (Harrison Ford), desaparecido há décadas. Entretanto, a Corporação Wallace também tem interesse em descobrir o paradeiro do ex-Blade Runner.


Em sua jornada, o agente K (Ryan Gosling), começa a questionar sobre sua condição de replicante. O que define os seres humanos? O modo como foram concebidos ou seus valores, crenças e ideais? Os replicantes são alegorias dos homens-máquinas, explorados, brutalizados, mantidos sob controle por uma ideologia de exclusão. No filme, ela se baseia no preconceito a partir da origem. Aqueles não nascidos, mas desenvolvidos em laboratório, são chamados de "peles falsas". Nessa sociedade, quem não nasceu, mas foi criado, não pode ser considerado humano por "não possuír alma". Sem passado, sem memória, os replicantes não sabem quem são. Precisam de implantes de memórias vividas por outras pessoas ou construídas para mantê-los estáveis. K precisa encontrar as respostas para suas próprias angústias pessoais e busca a ajuda da Dra. Ana Stelline (Carla Juri).

Robin Wright e Sylvia Hoeks (à direita)
O medo de uma revolução faz com que o sistema, representado pela figura da Tenente Joshi (Robin Wright) queira enterrar qualquer informação sobre o caso. O agente K também teme a mudança, mas na sua busca pela verdade, começa a desejar fazer parte dela. Por outro lado, Luv (Sylvia Hoeks), representa os interesses da Corporação Wallace, que almeja ter acesso às investigações de K, e assim descobrir toda a verdade que a Polícia de Los Angeles quer esconder. Além deles, outros grupos de replicantes rebeldes que vivem escondidos também procuram pelo ex-Blade Runner e temem que o segredo da caixa seja revelado. 

Sem dúvida, o ponto alto é a aparição de Deckard (Harrison Ford). Escondido em uma das áreas teoricamente mais atingidas pela radiação, o ex-Blade Runner sobrevive solitário num casarão com suas memórias e com uma tecnologia que recupera os ícones da cultura de massa. Rodeado de lembranças, ele foge do seu passado, que se faz presente. Desafiado a fornecer informações, os embates do ex-Blade Runner com o agente K (Ryan Gosling) e, principalmente, com Niander Wallace (Jared Leto) são as melhores sequências do longa. 

Com produção executiva do próprio Ridley Scott, Blade Runner 2049 não apenas recria esteticamente a atmosfera nebulosa e chuvosa do primeiro filme, mas constrói uma paisagem árida e artificial de um planeta em decadência, que resiste aos efeitos de uma guerra nuclear. O diretor de fotografia, Roger Deakins, amplia a paleta de cores, predominantemente azul do primeiro longa, utilizando tons mais saturados, como os neons, e carregando nas cores quentes, principalmente alaranjado e sépia. 

Nas sequências dentro das instalações da Corporação Wallace podemos observar um jogo de luz, evidenciando o reflexo da água, representando simbolicamente a vida, como o líquido amniótico de um grande útero artificial, em ambientes geométricos que lembram o interior e o mistério das grandes pirâmides do Egito. As sombras projetadas em meio ao sépia também nos remetem a estética dos clássicos do cinema mudo das décadas de 1910 e 1920. Já no salão dos protótipos da série Nexus, vemos figuras similares aos estudos de anatomia humana de DaVinci enfileirados como num grande museu de arte. 

A introdução de novos personagens, contextualizados no universo ficcional de Blade Runner, enriquecem a trama central sobre o envolvimento de Rick Deckard nos verdadeiros planos da Tyrel Corporation.

O industrialista Niander Wallace (Jared Leto) é uma figura misteriosa que não se sabe ao certo se é humana ou androide. Ele busca o poder sem limites, sonhando em descobrir a chave para reconstruir o éden na Terra. Em seus delírios de criador, representa o avanço da ciência, mas também a ganância do capital, transformando seres vivos em objetos. 

Numa sociedade pautada pela cegueira moral e ética, pelo consumismo e a satisfação imediata do prazer, as relações são líquidas, descartáveis. 

O agente "K" (Ryan Gosling) é um personagem solitário, obediente e constantemente monitorado pelo sistema. Incapaz de manter um relacionamento real, ele precisa de estabilidade emocional conseguida através da presença de uma namorada virtual, Joi (Ana de Armas). Criada como produto para atender ao mercado erótico e afetivo, ela é a imagem do estereótipo feminino numa sociedade machista. A boneca virtual pode ser o que o cliente quiser: assumir tanto o papel da dona de casa zelosa, a femme fatale, a amiga compreensiva, agindo também como cafetina para proporcionar prazer físico. Joi representa essa liquidez nos relacionamentos, em que a interpessoalidade vem sendo substituída pelo imaginário virtual.

Mariette (Mackenzie Davis)
Não há como não se emocionar com as homenagens aos personagens do primeiro Blade RunnerA breve aparição de Gaff (Edward James Olmos) e sua mania por origamis é um dos momentos nostálgicos do longa. A semelhança da personagem Mariette (Mackenzie Davis) com a replicante Pris (Daryl Hannah), do filme original, também impressiona. Mariette é uma doxie, criada para servir como prostituta. No entanto, ela também guarda um segredo. 
Nessa sociedade futurista e distópica, em que populações são oprimidas e marginalizadas, representadas na figura dos replicantes, a esperança ressurge no desejo de mudança. Simbolicamente, a imagem da esperança é construída na ficção pela força da vida: na flor que brota em meio a natureza morta, na colmeia que produz mel nos escombros, na fertilidade que antes parecia impossível. 

Como um espelho, o longa de Denis Villeneuve apresenta o reflexo da nossa sociedade pós-moderna. Assim como o filme original, mostra um mundo marcado pelo domínio das grandes corporações, da mídia e da transformação tecnológica que substitui ou transforma homens em máquinasContudo, além de aprofundar a crítica de uma sociedade pautada no consumo, nas liquidez dos relacionamentos e no controle estatal, Blade Runner 2049 também aponta para uma inevitável reação revolucionária da coletividade. 

Elisabete Estumano Freire.



Entre irmãs


Inspirado no livro "A costureira e o Cangaceiro", de Frances de Pontes Peebles, o novo filme de Breno Silveira é a história das irmãs Luzia (Nanda Costa) e Emília (Marjorie Estiano), duas mulheres que lutam pela sobrevivência, pelo amor e por sua independência, no nordeste dos anos 20/30.



Na infância, Luzia (Nanda Costa) sofre um acidente, que a deixa deformada. Ela se torna uma pessoa amarga, sem esperança de fazer um bom casamento. Já Emília (Marjorie Estiano) é alegre e sonhadora, nutrindo a esperança de encontrar seu príncipe encantado e morar na capital. As moças vivem com tia Sofia (Cyria Coentro), que as ensinou o ofício de costureira. A vida de ambas muda drasticamente com a chegada do bando de Carcará em Taquaritinga, no sertão de Pernambuco. 


O filme de Breno Silveira contextualiza o nordeste da República Velha, contrapondo o sertão e os centros urbanos, através da jornada das duas personagens. Enquanto Luzia é obrigada a acompanhar os cangaceiros, Emília vai morar em Recife, deparando-se com uma nova realidade. 

Na primeira metade do século XX, a capital pernambucana já era um importante centro comercial e um dos principais pólos de exportação da produção agrícola do país. Entretanto, os reflexos da crise financeira mundial após o crash da Bolsa de Nova Iorque chegaram ao Brasil, desestabilizando a economia nacional  e intensificando os conflitos entre as oligarquias dominantes, a burguesia, o proletariado urbano e o tenentismo, que reivindicavam reformas políticas e sociais. Nos centros urbanos, os conflitos políticos só aumentavam. No interior, como reação ao poder dos coronéis, surge o banditismo social na figura do cangaço. Portanto, o palco estava armado para a eclosão da Revolução de 1930. Um dos estopins foi o assassinato de João Pessoa, no centro de Recife. Ele era governador da Paraíba e candidato a vice na chapa de Getúlio Vargas.

O longa mostra os diferentes destinos destas mulheres, numa época de intensas transformações políticas, culturais e sociais no país. Recife possuía uma elite conservadora que recebia forte influência cultural e ideológica da Europa, retratado no filme com o evento do vôo inaugural do "Graf Zeppelin", em 22 de maio de 1930, realizando a rota Brasil-Europa. Muitos também acreditavam na cientificidade de teorias racistas, em voga na Europa, como a frenologia, que tinha a pretensão de determinar as características de personalidade, caráter e grau de criminalidade através da medição do crânio humano. O diretor também enfatiza a hipocrisia e o preconceito da sociedade familiar da época, que negava o homossexualismo e obrigava os filhos a serem submetidos à violência de pseudoterapias de reversão sexual realizada em manicômios.

Vivendo em mundos diferentes, mas unidas pelo amor, essas duas mulheres irão ultrapassar seus limites, tendo que aprender a sobreviver num mundo machista e preconceituoso. As personagens perdem a inocência e a fantasia, amadurecendo diante das adversidades. Apesar da distância, elas sabem que só tem uma a outra. 

A produção realizou um trabalho primoroso de reconstituição de época, através de cenografia, direção de arte, figurino e efeitos visuais que recuperam momentos históricos. As cenas de combate, do campo de refugiados e do vôo inaugural do Zepellin merecem especial atenção. Apesar da longa duração, 160 minutos, "Entre irmãs"consegue manter o ritmo, sem se tornar enfadonho. O que chama a atenção no filme de Breno Silveira, que definiu a obra como um épico feminino e intimista, é a forma delicada com que ele tratou das relações amorosas e do amor fraternal, além da coragem e da resignação de seus personagens. 

No elenco, Angelo Antônio, Júlio Machado, Rômulo Estrela,  Letícia Colin, Claudio Jaborandy, Rita Assemany, Gabriel Stauffer, Fábio Lago, Claudio Ferrario e Vinicius Nascimento.

Elisabete Estumano Freire.






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