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A noite do jogo


"A Noite do Jogo" é uma divertida comédia de ação e suspense, estrelada por Rachel McAdams e Jason Bateman. O filme, com roteiro de Mark Perez ("Aprovados") e direção da dupla de cineastas John Francis Daley e Jonathan Goldstein ("Quero Matar meu chefe", "Homem Aranha: de volta ao lar" e "Férias Frustradas"), narra a história de Max e Annie, um casal bastante competitivo, que termina se envolvendo numa jogada de vida ou morte. 

Apaixonados por jogos de adivinhação e quebra-cabeças, Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams) gostam de convidar os amigos para jogar em sua casa, nos finais de semana. Contudo, eles vivem fugindo da companhia do sinistro e inconveniente vizinho policial Gary (Jesse Plemons), que tenta a todo custo voltar a participar das reuniões, principalmente depois que se separou da ex-mulher. 

Sob a marcação cerrada de Gary, Max e Annie decidem realizar mais uma noite de jogos na surdina. Eles também aguardam a chegada de Brooks (Kyle Chandler), o irmão mais novo, bonito e bem sucedido de Max. Igualmente competitivo, Brooks não perde a oportunidade de constranger o irmão diante dos amigos. Ao final da noite, ele convida todos para mais uma partida, desta vez em sua mansão, prometendo proporcionar uma noite memorável. 
É a partir daí que o filme realmente começa. Brooks contrata uma agência especializada e anuncia uma partida que envolve o sequestro de um dos participantes. As regras, entretanto, são de alto risco, podendo  custar a morte de alguém. Todavia, apesar do jogo ser uma farsa, o prêmio para o vencedor é generoso, e todos aceitam a proposta. Só que nem tudo parece acontecer como o esperado, e Brooks termina sendo vítima de um sequestro de verdade, quando todos imaginam que tudo não passa de uma simples encenação.

A construção da narrativa é muito bem pensada, feita em camadas, jogando não somente com os personagens, mas com o espectador. Nada nunca é o que parece, à primeira vista. E nem quando termina o jogo e começa a realidade dentro da diegese fílmica. 

Apesar do clima de mistério estar sobre o foco central, o sequestro de Brooks, o filme explora diversas narrativas. O filme vai revelando a psicologia e a história dos personagens, trabalhando com muito bom humor a caracterização de diferentes tipos humanos. 

Sem abdicar de algumas situações clichês, os diretores conseguem construir comicidade e suspense que divertem o espectador. É claro que a presença de McAdams e Bateman ajudam e muito. Ambos os atores são carismáticos, possuem química e parecem bem à vontade na interpretação de seus personagens. Uma dobradinha que funcionou e que deve gerar uma continuação nas telonas.

A narrativa passa ainda por uma leitura das paixões humanas. Numa sociedade que incentiva a competição, todos disputam não somente dentro do jogo, mas entre si, revelando segredos e sentimentos. O filme mostra ainda a complexidade das relações interpessoais, que perpassam por avaliações erradas, disputas familiares, intrigas, baixa estima, questões de gênero e poder, até situações de discriminação e bullying.

"A Noite do Jogo" é um filme em movimento, onde a adrenalina toma conta dos personagens. A montagem é ágil, sem perder o ritmo, e cronológica, ainda que por alguns momentos utilize o recurso de flashbacks. Uma comédia inteligente, que trabalha com a nossa percepção do real, confrontando essência e aparência. Nos faz refletir ainda como podemos ser inteligentes, mas ao mesmo tempo ingênuos, quando tentamos acreditar na ilusão, apesar da verdade estar bem na nossa frente. 


Elisabete Estumano Freire

                                     




Estreia: 10 de maio
Duração: 1h40min.

Paris 8


Com roteiro e direção de Jean Paul Curveyac, "Paris 8" é uma história de amor e entrega à arte cinematográfica. O filme apresenta a trajetória do personagem Etienne (Andranic Manet), um jovem que sai de Lyon para Paris com o objetivo de estudar cinema na Sorbonne. A narrativa mostra o conflito entre o idealismo artístico e o ativismo político, de jovens que sonham em construir um mundo mais justo através da sua arte ou da militância partidária.

Recém-chegado ao ambiente universitário, Etienne vai deixando para trás a vida de adolescente que levava no interior da França. Sorbonne é um mundo novo,  que se abre para o personagem, mas que causa estranheza e amedronta, ao mesmo tempo que inebria a alma daqueles que amam a arte do cinema acima das relações interpessoais. 

Nesse novo universo, Etienne procura fazer amigos e conhece Mathias (Coretin Fila) e Jean-Nöel (Gonzague Van Bervesselès). Mathias se destaca entre os alunos, como o mais inteligente e exigente. Estudioso das obras clássicas, de gosto apurado e de grande oratória, o rapaz é bastante crítico e mordaz quanto à produção contemporânea do cinema francês e aos projetos dos demais alunos de cinema. Tal atitude, apesar de causar antipatia de muitos colegas, provoca em Etienne uma grande admiração e respeito. 

Inseguro para finalizar seu roteiro e apresentar seu projeto de curta, Etienne se torna cada vez mais dependente de Mathias, enquanto tenta se encontrar e autoafirmar. Instável amorosamente, vê o colega como um adversário intransponível, envolto numa atmosfera de mistério e sedução intelectual, que ajuda Etienne a ampliar sua perspectiva artística e visão de mundo.
Curveyac construiu um roteiro denso, em que os personagens apresentam várias camadas dramáticas, e aprofundam questões no âmbito ético, estético, político e filosófico, refletindo sobre o fazer cinematográfico. O autor questiona o papel político do cinema. Critica o cinema de pura fruição, que coloca o indivíduo numa posição confortável de espectador, incapaz de tomar alguma atitude prática, enquanto a vida continua do lado de fora, com suas urgências. Ele questiona a linha que separa cineastas de ativistas, de forma honesta, conclamando que as artes não devem se abster de seu papel político, chamando atenção para a responsabilidade da nova geração de cineastas. 

Com uma belíssima fotografia em PB, o filme apresenta um trabalho técnico primoroso, provocando uma aura de nostalgia que remete às vanguardas do cinema francês e italiano, aliado a trilha sonora recheada de composições clássicas. O diretor optou por uma montagem episódica e cronológica, em que os acontecimentos correspondem a diferentes fases da vida do personagem central. O filme é uma verdadeira obra poética, na forma e no conteúdo, que nos faz refletir sobre quem realmente somos, o que aparentamos ser e o que queremos realizar em nossas vidas. 

Elisabete Estumano Freire.

Ficha Técnica

Paris 8 (A Paris Education)
Direção: Jean-Paul Civeyrac
Roteiro: Jean-Paul Civeyrac
Elenco: Andranic Manet, Diane Rouxel, Jenna Thiam
Gênero: Drama
País: França
Ano: 2018
Duração: 137 min
Classificação: 14 anos

Estreia: 17 de maio de 2018.

"O Processo" (2018)


Dirigido por Maria Augusta Ramos, o filme "O Processo" é uma reflexão sobre o processo jurídico-político que resultou no afastamento da Presidente Dilma Roussef, a primeira mulher eleita pelo voto popular a ocupar o mais importante cargo do Poder Executivo Brasileiro. 


Sem interferir diretamente no objeto de sua observação, durante as filmagens, adotando o estilo do documentário direto norte-americano de Robert Drew ("Primárias",1960), a câmera de Maria Augusta Ramos acompanha os atores principais, da acusação e da defesa. O longa registra o dia a dia dos corredores do poder, apresentando os bastidores do Congresso Nacional, as discussões políticas e jurídicas em torno do processo, assim como a espetacularização da mídia, a repercussão internacional e a reação popular, mostrando um país dividido politicamente. 


"O Processo" é a continuação de uma proposta da cineasta em realizar filmes que possibilitem a reflexão sobre a relação do Poder Judiciário e a sociedade. Entre seus trabalhos mais conhecidos, a trilogia "Justiça" (2004), "Juízo"(2007) e "Morro dos Prazeres" (2013), além de "Futuro Junho"(2015), premiados em festivais no país e no exterior. Seus documentários mostram as relações humanas diante da força coercitiva dos aparelhos do Estado, que atuam de maneira mais incisiva sobre a população carente e marginalizada. Evidencia também a desigualdade entre as classes, a atuação da polícia, a criminalização de jovens infratores, o cotidiano das favelas, a atuação dos movimentos sociais e a luta dos trabalhadores. 

A ÉTICA NA APRESENTAÇÃO DOS ARGUMENTOS DA DEFESA E ACUSAÇÃO 


No documentário sobre o processo de impeachment da presidenta Dilma Roussef, percebe-se um esforço da cineasta em contemplar as diversas narrativas políticas, tanto da Esquerda quanto da Direita. Ainda que tenha tido mais acesso às reuniões internas da bancada do PT e da equipe dos advogados de defesa, Maria Augusta também acompanhou a movimentação dos políticos oponentes ao governo petista e à acusação, principalmente na figura da advogada Janaína Paschoal. 
O longa, além de ser um registro histórico dos acontecimentos políticos, revela a crise das instituições democráticas no país, a influência das bancadas religiosas no Congresso Nacional e a disputa pelo poder entre grupos antagônicos. Num contexto em que o governo petista estendia para o quarto mandato frente à presidência da República, a reação da oposição foi violenta. Sem apoio na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, o governo de Dilma Roussef se tornou alvo das acusações de crime de responsabilidade.


Quase de maneira didática, o documentário finalmente faz entender a inconsistência do teor da denúncia, que chamou de operações de crédito a política de subvenção econômica relativa ao Plano Safra, programa federal de apoio à produção agrícola, acusando a presidenta Dilma da prática de "pedaladas fiscais".  E ainda, a alegação de crime de responsabilidade pela edição de seis decretos de crédito suplementar, no exercício de 2015, que estariam supostamente em desacordo com a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Entretanto, tais decretos além de serem expressos por autorização legal estavam estritamente de acordo com o cumprimento da meta fiscal, sem aumentar as despesas da União, como esclareceu o advogado de defesa (AGU), José Eduardo Cardozo.

CRONOLOGIA E REPERCUSSÃO DOS FATOS

Para além das discussões legais e técnicas, o filme traz a cronologia dos fatos, decorrentes do recebimento da denúncia pela Presidência da Câmara. A admissibilidade da abertura do processo de impeachment era uma retaliação publicamente anunciada do então Deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) contra o partido do governo. Réu em três processos, todos ligados às investigações da "Operação Lava Jato" da Polícia Federal, Cunha não havia obtido o apoio do PT para impedir sua cassação no Conselho de Ética.

O documentário enfatiza a pequena repercussão internacional do processo de impeachment, à época ofuscado pelas notícias dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Também apresenta a inércia dos governos estrangeiros que não haviam se pronunciado oficialmente sobre a crise política brasileira. Destaca ainda o papel da imprensa, o cotidiano das coletivas e a guerra de informações sobre denúncias da "Operação Lava Jato" envolvendo os principais atores políticos. 


O filme também revela um posicionamento de autocrítica do Partido dos Trabalhadores, mostrando os erros cometidos no Poder, sem conseguir dialogar diretamente com grande parcela da população. A falta de comunicação com os anseios da sociedade, o distanciamento dos movimentos sociais e o isolamento político propiciaram a grave crise que o partido já vinha enfrentando, culminando no processo jurídico-político de impeachment da presidente Dilma Roussef, ainda que sem os indícios e materialidade  do crime de responsabilidade. 

A LINGUAGEM DOCUMENTAL E A ALUSÃO À OBRA DE KAFKA


A dialética presente na construção fílmica, mostrando a manifestação dos dois lados políticos, é fator preponderante na narrativa de "O Processo". A montagem é feita com esta preocupação, sem  abrir mão dos respiros e certos alívios cômicos, mantendo o ritmo e o interesse do espectador. A documentarista também optou por não incluir trilha musical, nem narrativas em off. 

O filme é pontuado por cartelas, com informações sobre as etapas do processo, o uso de áudios de arquivo e som direto, captando os bastidores do Congresso e a musicalidade das ruas. Apesar de adotar as diretrizes conceituais do cinema direto norte-americano, de intervenção mínima, o recorte escolhido pela documentarista evidencia o processo criativo na apropriação do real, e o empenho em apresentar os diferentes discursos, sem abdicar do seu posicionamento político. 

"O Processo" é resultado de um trabalho minucioso de montagem, reduzindo cerca de 450 horas de filmagem em 2h17 minutos. Apesar de abordar um tema espinhoso e complexo, Maria Augusta e sua equipe mostraram o que a imprensa hegemônica brasileira não fez: apresentar os fatos e fundamentos jurídicos do argumento da defesa, que demonstravam a nulidade do recebimento da denúncia, os vícios procedimentais e a ausência de conduta criminosa, ilícita ou culposa por parte da presidente Dilma, que ensejaria a extinção do processo de impeachment.


A escolha do título é de uma precisão jurídica e singular, já que faz alusão a obra homônima de Franz Kafka. O autor tcheco, de origem judia, formado em Direito e integrante da Escola de Praga, possui um olhar pessimista sobre o Poder Estatal e a opressão burocrática das instituições. Ele critica o sistema jurídico, a representação da Justiça e o Estado de Direito. Em "O Processo", o personagem Joseph K. é funcionário de um banco, sendo acusado num processo misterioso, arbitrário, e condenado de pronto, sem ter cometido crime algum. A forma se sobrepõe à substância, numa acusação sem materialidade. 


Adaptado para o cinema na década de 1960, a obra de Kafka chega às telonas pelas mãos de Orson Welles. O filme de ficção é contemporâneo das discussões sobre o acesso à justiça, numa época em que Hollywood não tinha se recuperado do terror do Macarthismo, de violações de direitos civis e perseguições políticas contra simpatizantes de esquerda, durante o período da Guerra Fria. 

Analogamente, o documentário de Maria Augusta Ramos retoma o título para mostrar a arbitrariedade na condução do processo jurídico-político de impeachment da presidente Dilma Roussef. Como um jogo de cartas marcadas, mostra que o rito processual foi colocado acima da substância da matéria jurídica para atender a interesses políticos e promover a destituição de uma mulher, reeleita a Presidente da República, por sufrágio popular, com mais de 54 milhões de votos. 

O FUTURO DO BRASIL


O filme aponta as primeiras consequências após o afastamento da presidente Dilma Roussef. O agravamento da crise social, como corolário da crise política, na retirada de direitos dos trabalhadores. As previsões e denúncias da bancada do PT sobre a condução na nova política governamental se concretizam. O governo de Michel Temer, que deu prosseguimento à reforma trabalhista e ao encaminhamento da reforma previdenciária, foi protegido pela maioria da Câmara, que votou pelo arquivamento do processo de corrupção passiva denunciado pelo procurador Rodrigo Janot. Enquanto isso, a perseguição às lideranças da esquerda continuam, culminando com a prisão do ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva

Premiado nos mais importantes festivais de cinema documental na Espanha (Festival Documenta Madri), Portugal (Festival Indie Lisboa), Suíça (Festival Vision du Reel) e Alemanha (Berlinale), o filme "O Processo" vem conquistando o reconhecimento internacional. O documentário de Maria Augusta Ramos além de revisar a história política recente do país, é um trabalho de preservação da memória nacional, revelando o outro lado da história, que a imprensa hegemônica preferiu abafar, agravando as diferenças e provocando o acirramento da polarização política da sociedade brasileira.  

Para ler nossa crítica sobre a ficção "O Processo" de Orson Welles, uma adaptação da obra de Franz Kafka, é só clicar no link a seguir: http://www.cabinedecinema.com/2017/02/o-processo-1962.html

Elisabete Estumano Freire.



Sinopse:
"O Processo" oferece um olhar pelos bastidores do julgamento que culminou no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff em 31 de agosto de 2016. O filme testemunha a profunda crise política e o colapso das instituições democráticas no país.

Ficha Técnica:
Direção e Roteiro: Maria Augusta Ramos
Direção de Fotografia: Alan Schvarsberg
Som: Marta Lopes
Montagem: Karen Akerman
Edição de Som: Bernardo Uzeda
Mixagem: Gustavo Loureiro
Direção de Produção: Paula Alves
Produção Executiva: Maria Augusta Ramos
Uma Produção de: Nofoco Filmes
Uma Coprodução de: Autentika Films, Conjin Film e Canal Brasil
Ditribuição: Vitrine Filmes

Se você soubesse

Dirigido pela cineasta francesa Joan Chemla, e estrelado pelo ator mexicano Gael García Bernal,  Se você soubesse (Si Tu voyais son coeur) é inspirado no romance Mon Ange (Boarding Home, 1987), do escritor cubano Guillermo Rosales. O filme narra a história do personagem Daniel (Bernal), um membro de uma comunidade de ciganos hispânicos, que mora no subúrbio dos arredores de Paris, e que se sente duplamente exilado, pela condição de estrangeiro e por sua família. 


Discriminado pela sociedade francesa e excluído do mercado de trabalho, o cigano Daniel vive de pequenos golpes e crimes. Seu amigo Costel (Nahuel Perez Biscayart), após o casamento e sem conseguir um emprego formal, pede sua ajuda e passa a participar dos esquemas feitos por Pepe (Manuel "Manole" Munõz). Tudo parecia ir bem, quando um infortúnio acontece, desestruturando a vida de Daniel.


Perseguido por Lucho (Mariano Santiago), Daniel é expulso da comunidade de ciganos e encontra refúgio no Hotel Metrópole. O local é uma espécie de abrigo de idosos, prostitutas, loucos e párias. Constantemente extorquido, sem dinheiro para pagar o aluguel, Daniel aceita trabalhar para o mafioso Ali (Abbes Zahmani), dono do hotel e seu violento gerente, Michel "Umberto" (Karim Leklou). Vivendo no limite de sua sanidade, Daniel é atormentado pelas lembranças do passado e pela depressão. 


A cineasta constrói uma narrativa através da memória do protagonista. A montagem utiliza o recurso do flashback em vários momentos, sempre contrastando com o presente do personagem. A fotografia também reforça o subjetivo de Daniel, alternando a luminosidade do passado de felicidade, em meio a comunidade de ciganos e ao lado do amigo Costel (Biscayart), e a escuridão de dor do presente, representado por tons sombrios e vermelhos do hotel Metrópole. O local é a verdadeira imagem do inferno na alma do protagonista.


A movimentação sinuosa da câmera do diretor de fotografia Andre Chemetoff também reflete toda a perturbação do espírito de Daniel. Percorrendo corredores escuros, atravessando paredes com travellings que riscam o ambiente em diagonal, e o uso excessivo de plongèes, Chemetoff representa visualmente a alternância dos momentos de lucidez e alucinação do protagonista. 


Com o aparecimento de Francine (Marine Vacht), a esperança ressurge para Daniel. A personagem, que está sob a tutela de Ali, devolve ao protagonista a motivação para enfrentar os desafios. A mudança de perspectiva do personagem é percebida visualmente por uma fotografia mais iluminada. A trilha sonora também é bastante utilizada pela cineasta como índice deste sentimento, além do uso de imagens simbólicas. Um dos momentos mais sublimes é a sequência ao som de Danúbio Azul, Opus 314, de Johann Strauss. 


O filme de Joan Chemla é uma adaptação da obra do romancista e jornalista cubano, Guillermo Rosales, que fugiu do regime de Fidel Castro e foi se exilar nos Estados Unidos, em 1979. O autor sofria de esquizofrenia e se sentia um duplo exilado, pelo seu país e por sua família. Cometeu suicídio em Miami, em 1993, aos 47 anos de idade. Dono de um estilo forte, de crítica voraz e niilista, Rosales destruiu a maior parte de suas obras, deixando apenas dois romances publicados: El Juego de la Viola (1967) e The Halfway House (Original) reaparecendo sob o título de Boarding Home (1987), romance vencedor do prêmio "Letras de Oros", publicado em francês sob o título Mon Ange.


Elisabete Estumano Freire



Estreia: 03/05/2018, lançamento exclusivo em formato streaming, no Itunes, Now e Google.

SE VOCÊ SOUBESSE (SI TU VOYAIS SON COUER, 2017)
DURAÇÃO: 1h26m. 
GÊNERO DRAMA. 



Submersão

Dirigido por Wim Wenders, "Submersão" é baseado no livro homônimo de J.M. Legard, e narra a história de amor de dois personagens que vivem em mundos completamente opostos e se encontram num remoto hotel na região da Normandia. Enquanto a biomatemática Danielle "Danny" Flinders (Alicia Vikanders) está realizando uma pesquisa oceanográfica, o espião britânico e engenheiro de águas, James Moore (James Mcvoy) pretende se infiltrar junto a um grupo de terroristas jihadistas. 

O filme faz parte do chamado grupo B de Wenders, divisão natural feita pelo próprio cineasta, caracterizado como produções em cores, centrados nos personagens, criados a partir de histórias de outros autores, com orçamentos maiores e uma estrutura de produção mais organizada, próxima ao estilo hollywoodiano. De acordo com Martins (2014)*, temos ainda: o grupo A, que se caracteriza por filmes em preto e branco, de baixo orçamento, centrados numa percepção da paisagem e de caráter mais realista, com roteiros construídos durante as filmagens; e o grupo misto, que reúne características de ambos os grupos.

Em "Submersão", os personagens são seres solitários, como anjos alados, totalmente comprometidos com o seu trabalho e um grande desejo de contribuir com a humanidade, ainda que para isso precisem desafiar os riscos da morte. Entretanto, o encontro amoroso acontece, mudando a perspectiva de ambos sobre o sentido da vida e o preço do sacrifício pessoal.  

O contraste existente entre o indivíduo nômade e o sedentário, uma constante nos personagens wendersianos, também está presente em "Submersão". Vivendo na fronteira de dois lados opostos, tanto Danny quanto James possuem um olhar estrangeiro, mas nutrem um desejo enorme de se fixar, estabelecer laços que os mantenham em segurança.
Wenders mais uma vez destaca a exuberância da paisagem para revelar o sentimento de solidão e de impotência dos personagens. Em meio a uma realidade que, ao mesmo tempo, os oprime e os conduz, eles são impulsionados por uma força centrífuga da qual não conseguem se desvencilhar. Cineasta de alma romântica*, Wim Wenders utiliza as ruínas de guerra nas praias da Normandia para mostrar a fragilidade da vida humana diante das barreiras quase intransponíveis do mundo que eles precisam enfrentar. O medo faz parte desse conflito, que permanece presente, interferindo diretamente na união e/ou separação dos personagens.  


A narrativa é feita inicialmente em flashbacks, a partir das memórias de James (Mcvoy), que se encontra refém dos jihadistas. Depois, o presente de ambos os personagens é revelado numa montagem alternada. A escuridão e a claustrofobia do ambiente do submergível é comparada ao cativeiro de James, que luta para manter a sanidade e a esperança em sair vivo dali e reencontrar Danny (Vikanders).


A ideologia política e religiosa é confrontada na figura do Dr. Shadid (Alexander Siddig), e dos extremistas jihadistas, que questionam as crenças de James como condição para sua sobrevivência. O embate ideológico também passa pela tentativa de desconstrução da identidade do prisioneiro, que em crise busca em suas memórias o equilíbrio.


A percepção da realidade que nos envolve, a dificuldade em enxergar o que está diante de nossos olhos é outra constante nos filmes do cineasta alemão. Numa eterna relação de mediação com o mundo, os personagens têm dificuldades em se comunicar e sofrem o sentimento de abandono, sempre frustrados em seu desejo de aproximação com o outro.


Partindo da adaptação do romance de J.M. Legard, Wenders trabalha com as camadas do oceano profundo e o subconsciente humano, que determina nosso modo de entender a realidade e enfrentar a vida. O discurso da guerra, seja interna ou externa, permeando o posicionamento do indivíduo também é trabalhado neste longa. "Submersão" é mais um filme do cineasta alemão que relaciona a paisagem como janelas para o interior emocional dos indivíduos.

Elisabete Estumano Freire

* India Mara Martins, autora do livro "A paisagem no cinema de Wim Wenders"(Editora Contracapa, 2014) é uma pesquisadora e professora do curso de Cinema da Universidade Federal Fluminense.



SUBMERSÃO (SUBMERGENCE, 2017)
DURAÇÃO: 1h52m
DRAMA, ROMANCE, TRILLER

Aos teus olhos


Dirigido por Carolina Jabor, "Aos teus olhos" aborda o perigo de julgamentos precipitados compartilhados nas redes sociais. O filme narra a história de Rubens (Daniel de Oliveira), um professor de natação infantil, que é acusado pelos pais de um de seus alunos de pedofilia. O caso cai nos grupos de mensagens da escola e repercute na internet sem que o professor tenha chances de se defender e sem qualquer investigação, com consequências graves para ele. 

Inspirado na peça espanhola "O princípio de Arquimedes", de Josep Maria Miró, com roteiro de Lucas Paraizo, o filme questiona o linchamento moral das pessoas sem provas. E ainda, o perigo do uso irresponsável das redes sociais em compartilhar falsas denúncias contra a honra dos indivíduos. O longa é uma crítica sobre a falsa ideia da internet como "Terra de ninguém", em que tudo é possível, sem a necessidade de se preservar a imagem e a dignidade do outro. E chama atenção para o fato de que é importante se observar o princípio legal da presunção da inocência até que se prove o contrário. 

A opção por uma narrativa construída a partir da ambiguidade dos personagens, na imprecisão dos acontecimentos e no medo permitiu uma ênfase na subjetividade.  Há um questionamento sobre a mudança de valores na relação professor-aluno, muitas vezes distorcida nos tempos atuais. Por outro lado, o conflito entre os pais do garoto e a cobrança pela excelência no desempenho da criança também é colocada em pauta. 


Tanto a atitude dos pais, interpretados pelos atores Marco Ricca e Stella Rabelo, quanto do menino Alex (Luiz Felipe Mello) levam o público a duvidar até o último momento sobre a inocência ou não do professor. Seria Rubens realmente um abusador? Ou o estranho comportamento do garoto é devido ao conflito parental da qual é vítima? Outro tema levantado é o preconceito e discriminação referente aos homossexuais. A orientação sexual do personagem é questionada pelos pais do menor, pelo colega de trabalho (Gustavo Falcão) e pela diretora do clube de natação (Malu Galli), como possível justificativa para acusar o professor de abuso sexual contra menores.   


A montagem é fluida, desenvolvida em ordem cronológica, tendo como elemento de destaque a água, que ganha um novo significado, como uma pausa na narrativa e momento de reflexão não somente dos personagens, mas também do espectador. Este último não é testemunha do fato, mas é levado a tirar suas próprias conclusões a partir dos discursos dos personagens, por essência contraditórios e tendenciosos. Tudo parte do ponto de vista do observador, já que todos assumem um posicionamento levado pela emoção e não pela razão.  


O filme mostra como a prática do denuncismo irresponsável, pode levar os indivíduos a destruir a reputação e a vida de uma pessoa, condenada sem provas e sem direito à defesa. Um alerta, principalmente em tempos de internet, em que o linchamento virtual é cada vez mais presente. Tal prática é um crime contra a honra (Calúnia, injúria e difamação), tipificado no Código Penal Brasileiro (arts. 138,139,140).

"Aos teus olhos" de Carolina Jabor nos faz lembrar do caso da Escola Base, localizada no bairro da Aclimatação, em São Paulo, em março de 1994. Os proprietários da escola foram massacrados pela mídia e pela sociedade, acusados de pedofilia e prática de orgia com crianças de quatro anos de idade. Foram presos, agredidos, ameaçados de morte. No entanto, eram inocentes. O caso foi arquivado por falta de provas. Como resultado, os donos da escola faliram financeiramente e tiveram a vida pessoal destruída. 

Elisabete Estumano Freire.




AOS TEUS OLHOS (2017) - BRASIL
DURAÇÃO: 1h27m
GÊNERO DRAMA.