Entre irmãs


Inspirado no livro "A costureira e o Cangaceiro", de Frances de Pontes Peebles, o novo filme de Breno Silveira é a história das irmãs Luzia (Nanda Costa) e Emília (Marjorie Estiano), duas mulheres que lutam pela sobrevivência, pelo amor e por sua independência, no nordeste dos anos 20/30.



Na infância, Luzia (Nanda Costa) sofre um acidente, que a deixa deformada. Ela se torna uma pessoa amarga, sem esperança de fazer um bom casamento. Já Emília (Marjorie Estiano) é alegre e sonhadora, nutrindo a esperança de encontrar seu príncipe encantado e morar na capital. As moças vivem com tia Sofia (Cyria Coentro), que as ensinou o ofício de costureira. A vida de ambas muda drasticamente com a chegada do bando de Carcará em Taquaritinga, no sertão de Pernambuco. 


O filme de Breno Silveira contextualiza o nordeste da República Velha, contrapondo o sertão e os centros urbanos, através da jornada das duas personagens. Enquanto Luzia é obrigada a acompanhar os cangaceiros, Emília vai morar em Recife, deparando-se com uma nova realidade. 

Na primeira metade do século XX, a capital pernambucana já era um importante centro comercial e um dos principais pólos de exportação da produção agrícola do país. Entretanto, os reflexos da crise financeira mundial após o crash da Bolsa de Nova Iorque chegaram ao Brasil, desestabilizando a economia nacional  e intensificando os conflitos entre as oligarquias dominantes, a burguesia, o proletariado urbano e o tenentismo, que reivindicavam reformas políticas e sociais. Nos centros urbanos, os conflitos políticos só aumentavam. No interior, como reação ao poder dos coronéis, surge o banditismo social na figura do cangaço. Portanto, o palco estava armado para a eclosão da Revolução de 1930. Um dos estopins foi o assassinato de João Pessoa, no centro de Recife. Ele era governador da Paraíba e candidato a vice na chapa de Getúlio Vargas.

O longa mostra os diferentes destinos destas mulheres, numa época de intensas transformações políticas, culturais e sociais no país. Recife possuía uma elite conservadora que recebia forte influência cultural e ideológica da Europa, retratado no filme com o evento do vôo inaugural do "Graf Zeppelin", em 22 de maio de 1930, realizando a rota Brasil-Europa. Muitos também acreditavam na cientificidade de teorias racistas, em voga na Europa, como a frenologia, que tinha a pretensão de determinar as características de personalidade, caráter e grau de criminalidade através da medição do crânio humano. O diretor também enfatiza a hipocrisia e o preconceito da sociedade familiar da época, que negava o homossexualismo e obrigava os filhos a serem submetidos à violência de pseudoterapias de reversão sexual realizada em manicômios.

Vivendo em mundos diferentes, mas unidas pelo amor, essas duas mulheres irão ultrapassar seus limites, tendo que aprender a sobreviver num mundo machista e preconceituoso. As personagens perdem a inocência e a fantasia, amadurecendo diante das adversidades. Apesar da distância, elas sabem que só tem uma a outra. 

A produção realizou um trabalho primoroso de reconstituição de época, através de cenografia, direção de arte, figurino e efeitos visuais que recuperam momentos históricos. As cenas de combate, do campo de refugiados e do vôo inaugural do Zepellin merecem especial atenção. Apesar da longa duração, 160 minutos, "Entre irmãs"consegue manter o ritmo, sem se tornar enfadonho. O que chama a atenção no filme de Breno Silveira, que definiu a obra como um épico feminino e intimista, é a forma delicada com que ele tratou das relações amorosas e do amor fraternal, além da coragem e da resignação de seus personagens. 

No elenco, Angelo Antônio, Júlio Machado, Rômulo Estrela,  Letícia Colin, Claudio Jaborandy, Rita Assemany, Gabriel Stauffer, Fábio Lago, Claudio Ferrario e Vinicius Nascimento.

Elisabete Estumano Freire.






Zama


Inspirado na novela de Antônio di Benedetto, "Zama", de Lucrécia Martel, narra a história da colonização espanhola na América, recriando o cenário das primeiras administrações do império hispânico em território argentino. Além de apresentar os desafios dos administradores do Vice-Reinado da Prata, o filme mostra personagens que representam a composição do povo portenho, abordando temas como preconceito, misticismo, submissão e o papel da mulher na sociedade.


O personagem central é Don Diego de Zama (Daniel Giménez Cacho), um oficial da Coroa, que está na função de corregedor de uma longínqua província da Colônia. Longe da esposa e dos filhos, ele aguarda sua transferência para Buenos Aires, mas apesar de seus esforços, a carta do Rei autorizando sua movimentação parece nunca chegar. Conhecido por seu "talento" de pacificador de índios, Zama é um homem franco e severo. Sua postura faz com que ele entre em conflito com pessoas que podem prejudicar seus interesses.


Martel apresenta uma sociedade marcada pela submissão e pelo preconceito, focando o papel da mulher no contexto da época. Enquanto escravas e índias são negociadas como objeto de prazer, as filhas brancas de colonos temem pelos ataques do temido Vicuña Porto. Por outro lado, Luciana (Lola Duenãs), mulher do ministro do Rei, é uma personagem sedutora que aprende a jogar num mundo masculino e que terá grande influência no destino de Zama. 

O roteiro também trabalha com o misticismo em torno da cultura indígena, da criação de lendas e do medo dos dominadores de perder o controle de seus subalternos materializados na figura do livro, objeto que representa o pensamento crítico em torno de novas narrativas. O filme ressalta ainda outros aspectos históricos da sociedade colonial, como o intenso contrabando, os conflitos internos e a exploração de pedras preciosas na América Colonial. Destaque para a participação do ator brasileiro Matheus Nachtergaele, um dos soldados que acompanha Zama na região dos pampas com a missão de caçar um bandido perigoso, e da atriz Mariana Nunes interpretando uma ex-escrava que busca o casamento.



A excelência do trabalho sonoro de Martel é um fator que deve ser levado em conta pelo espectador. A cineasta constrói sentidos com a manipulação da banda sonora, dentro e fora de campo, revelando a atenção dos personagens e certa confusão mental. Essa imersão de sons faz de "Zama" um filme que deve ser apreciado com muita atenção, através de todos os sentidos.

O filme está na programação do Festival do Rio 2017.

Elisabete Estumano Freire.




Título: ZAMA 
duração: 115’
gênero: Drama
ano: 2017

festivais e prêmios: Veneza, Toronto, Nova York

Direção: Lucrecia Martel
Produzido por: Benjamin Domenech, Santiago Gallelli, Matías Roveda, Vania Catani

Coprodução: Pedro Almodóvar, Agustín Almodóvar, Esther García, Marie-Pierre Macia, Claire Gadéa, Juan Pablo Galli, Juan Vera, Alejandro Cacetta, Eva Eisenloeffel, Leontine Petit, Joost de Vries, Michel Merkt, Luís Urbano, Georges Schoucair, Joslyn Barnes, Danny Glover, Susan Rockefeller, Juan Perdomo, Natalia Meta

Produção executiva: Pablo Cruz, Gael García Bernal, Diego Luna, Angelisa Stein

Produtores associados: Guillermo Kuitca, Juan Manuel Collado, Fabiana Tiscornia, Elvira González Fraga, Alejandro Musich, Gonzalo Rodríguez Bubis, Julia Solomonoff

Roteiro: Lucrecia Martel
Elenco principal: Daniel Gimenez Cacho, Lola Dueñas, Matheus Nachtergaele, Juan Minujín, Mariana Nunes, Rafael Spregelburd, Daniel Veronese.

Assistente de Direção: Fabiana Tiscornia
Diretor de Produção: Javier Leoz
Direto de Fotografia: Rui Poças
Diretora de Arte: Renata Pinheiro
Figurino: Julio Suarez
Desenho de Som: Guido Berenblum (ASA)
Mixagem: Emmanuel Croset
Editores: Miguel Schverdfinger, Karen Harley
Maquiagem: Marisa Menta
Hairstyling: Alberto Moccia
Casting: Verónica Souto, Natalia Smirnoff

Um filme de cinema


O documentário de Walter Carvalho é uma reflexão sobre o fazer cinematográfico. Através de depoimentos de cineastas autorais, o diretor paraibano vai montando a tecitura de sua reflexão pessoal sobre tempo, memória e arte. É destinado àqueles que gostam de cinema, não apenas como espectador, mas que buscam o sentido do filme e a motivação do realizador por trás da câmera.


As ruínas de um antigo cinema do interior da Paraíba é o ponto de partida. Walter Carvalho, diretor de fotografia e cineasta, ao longo de 45 anos de carreira, nos conduz pelos caminhos da sétima arte, para pensar o cinema como resultado de um trabalho intelectual, que vai além da narrativa, do contar histórias. É um olhar sobre o ofício, as escolhas na construção da imagem, a representação, o movimento, o tempo. 

Segundo o cineasta paraibano, o documentário levou 14 anos para ser concluído. Foi feito durante a realização de outros filmes, reunindo um time de feras do cinema, do teatro e da literatura. Alguns já falecidos, como os saudosos Hector Babenco, Andrew Wadja, Vilmos Zgsigmond e o escritor Ariano Suassuna. Outros ainda na ativa, como Ruy Guerra, Lucrécia Martel, Júlio Bressane, Ken Loach, Gus Vant Sant, Jia Zhangke e José Padilha. Para todos, Walter Carvalho fez as seguintes perguntas: Por que fazer cinema? Pra que serve o cinema? 


No filme, os entrevistados também falam sobre suas memórias e experiências pessoais com o cinema. Ariano Suassuna, por exemplo, revela suas primeiras impressões no cine-poeira da infância, no interior da Paraíba. 

A nostalgia dos primórdios da sétima arte e as primeiras salas de cinema nos levam ao encontro do passado e do presente. Talvez uma das belas surpresas do filme seja, sem dúvida, o reencontro com Salvatore Cascio, o ator que protagonizou o pequeno Totó, do premiado Cinema Paradiso (1988), de Giuseppe Tornatore. O cinema da ficção, que não existe mais, permanece nos corações dos habitantes da região da Sicília (Itália), sendo o local lembrado e revisitado por turistas nos dias atuais. O passado que insiste em se tornar presente.

No princípio era o plano, o enquadramento. Depois, o movimento. Se o olhar foi vinculado ao espaço, o som ficou associado ao tempo, escapando ao quadro, e se tornando a chave para a construção do plano. O cinema brinca com o tempo, desafiando as leis da física, e ao mesmo tempo, sendo justificado por ela. Com Ruy Guerra, Lucrécia Martel, Gus Vant Sant, José Padilha, Béla Tarr, Júlio Bressane e Ken Loach, entendemos que o cinema é mais que uma convenção, mais que uma linguagem. Sua força reside na criação de uma temporalidade, na desconstrução da verdade, no corte, no truque da dimensão da vida. Eles nos lembram que o cinema tem força como ato político, uma forma de democracia, de liberdade, condensando passado e futuro no tempo presente. 

Essa construção da relação temporal no cinema nos faz lembrar o pensamento de Gilles Deleuze e, consequentemente, de Henri Bergson: imagem-tempo e imagem-movimento. Partindo dessa dialética, no esvaziamento da confrontação do movimento, como realidade física no mundo exterior, e com a imagem, como realidade psíquica na consciência, tem-se a construção de uma nova relação e de uma nova realidade. 

O longa ainda aborda a visão dos cineastas sobre a evolução da arte cinematográfica, passando pelas diversas vanguardas, como o cinema impressionista de Abel Gance, as experiências de Mário Peixoto, até as ondas do neorrealismo italiano, da nouvelle vague francesa e do cinema novo brasileiro. Através dos depoimentos, Walter Carvalho revela que todo ato de criar, ainda que permeado pela relação entre os artífices do ofício, tem como limite a tela e a comunicação com o público, receptor final do filme.

O documentário emociona. É um filme sobre a experiência individual e coletiva do cinema. Nele, o diretor dá o seu recado: ainda que seja realizado por uma elite intelectual e financeira, e sofra a pressão da indústria mainstream, o cinema, principalmente o autoral, permanece como uma arte voltada para a sociedade refletir sobre seus dilemas, sua história e realidade. É o papel social do cinema, como reflexo de um processo cultural e político, que proporciona o nascimento do verdadeiro cinema. 

Elisabete Estumano Freire

Pedro Malasartes e o duelo com a morte


Escrito e dirigido por Paulo Morelli, o longa narra as aventuras do caipira mais esperto do Brasil. Inspirado no personagem lendário do folclore ibero-americano, "Pedro Malasartes e o duelo com a morte" é estrelado por Jesuíta Barbosa, Ísis Valverde e Júlio Andrade, no papel da morte.

Enquanto vive de pequenas trapaças, Malasartes (Jesuita Barbosa) precisa pagar uma dívida com seu grande inimigo, o fazendeiro Próspero (Milhem Cortaz), irmão de sua amada Áurea (ísis Valverde). Ás vésperas de completar 21 anos, o caipira espera com ansiedade o presente de seu padrinho rico para poder quitar a dívida. Entretanto, ele desconhece que é afilhado da morte (Júlio Andrade), que depois de dois mil anos ceifando vidas, deseja finalmente tirar férias do ofício, colocando Malasartes em seu lugar.

No outro mundo, a bruxa Parca cortadeira (Vera Holtz), líder das bruxas Teceira (Luciana Paes) e Fiandeira (Julia Ianina), quer assumir o cargo destinado a Malasartes. Com a ajuda do assistente Esculápio (Leandro Hassum), ela pretende atrapalhar os planos da morte e impedir que o caipira assuma o destino dos humanos. Na companhia do amigo Zé Candinho (Augusto Madeira) e de Áurea (Ísis Valverde), o caipira terá que descobrir uma maneira de enfrentar seus inimigos e se livrar dos perigos que os aguardam.

O filme é uma comédia leve e divertida, destinada a todos os públicos. Orçado em 9,5 milhões de reais, é a produção cinematográfica com mais efeitos especiais da história do cinema nacional, com mais de 50% das cenas geradas por computador. É ambientado em dois cenários principais: o interior rural e o mundo mágico da morte. O resultado na telona impressiona pelos requintes dos efeitos visuais, lembrando blockbusters de magia, como a da saga do bruxinho Harry Potter.

Avaliação: Muito Bom.

Elisabete Estumano Freire.



Título: Malasartes e o Duelo com a morte (2017)
Direção: Paulo Morelli
Estrelando: Jesuita Barbosa, ìsis Valverde, Júlio Andrade.
Estreia: 10 de agosto

Lady Mcbeth


Dirigido por William Oldroyd e estrelado por Florence Pugh, o filme é uma livre adaptação do romance Lady MacBeth of Mtsensk District, de Nikolai Leskov, sobre a trágica e violenta história da bela Katerina, uma jovem presa a um casamento de conveniência, que desafia os rígidos padrões da sociedade russa do século XIX. Para conseguir o que quer, ela ultrapassará todos os limites. 

Produzido pela BBC films, com roteiro de Alice Birch (Prêmio George Devine de dramaturgo mais promissor de 2014), o longa é ambientado na Inglaterra rural de 1865, marcadamente patriarcal e racista. Katherine (Florence Pugh) é objeto de uma negociação matrimonial com o sr. Boris Macbeth (Christopher Fairbank). Rejeitada pelo marido, invejada por sua serva e dama de companhia, ela se envolverá num caso extraconjugal com Sebastián (Cosmo Jarvis), trabalhador da propriedade do marido, desencadeando uma rede de intrigas e assassinatos. 

Inspirado na obra shakesperiana, a Lady Macbeth de Leskov é tão perigosa quanto a esposa do general da Escócia que instiga o marido a assassinar o rei Duncan, para assumir o trono. Entretanto, o autor russo, contemporâneo de Tostói e Dostoievski, criou uma heroína ambiciosa e fria que, ao mesmo tempo, tornou-se símbolo da independência feminina por desafiar a opressão do domínio patriarcal. Essa roupagem libertária da personagem de Leskovainda que sem eximi-la de sua culpa e de seus crimes, inspirou ainda a ópera Lady Macbeth, de Dmitri Shostakóvithc (1934); os romances noir de Raymondo Chandler; e o filme Lady Macbeth siberiana, do cineasta Andrzej Wadja. 

É mais um filme sobre a psicopatia, a pulsão pelo desejo e o ódio. O diretor constrói uma aura sombria, que vai envolvendo todos os personagens, numa violência crescente de assédio moral e físico. Com cenas fortes, e a interpretação convincente de Florence Pugh, o longa pode incomodar os espectadores mais sensíveis. 

O elenco conta ainda com a presença de Paul Hilton (O morro dos ventos uivantes) e da estreante Naomi Ackie. 

Estreia nos cinemas:17 de agosto de 2017.

Elisabete Estumano Freire

Avaliação: Muito Bom


Título: Lady Macbeth (2016)
Origem: Reino Unido. Duração: 99 min.
Direção: William Oldroyd.
Elenco: Florence Pugh, Christopher Fairbank, Cosmo Jarvis
Gênero: Época/ Drama
Classificação: 16 anos.

O planeta dos macacos: a guerra


O último longa da trilogia "Planeta dos Macacos", dirigida por Matt Reeves, que narra a história do macaco Caesar, apresenta uma batalha épica pela sobrevivência, questionando o futuro da humanidade.


Neste terceiro episódio, Caesar (Andy Serkis) lidera um grupo de macacos que, escondidos na floresta, tentam se defender dos constantes ataques de soldados. Assombrado pela lembrança de Koba (Toby Kebbel), ele procura uma oportunidade para acabar com o confronto. Entretanto, novas traições entre os chimpanzés colocam o acampamento em perigo, sendo atacado por mais uma patrulha comandada pelo Coronel (Woody Harelson). Com novas baixas, a perspectiva pacifista de Caesar parece mudar, e agora ele não deseja apenas manter os macacos em segurança, mas vai buscar o confronto direto.


O Coronel de Woody Harelson é um opositor à altura de Caesar. Apesar de ser uma figura militar extremista, comandando uma legião de soldados doutrinados pelo ódio aos macacos, o personagem não é raso. Sua construção psicológica é um dos pontos altos do filme. O embate entre Caesar e o Coronel não se dará apenas no campo de batalha, mas ao nível da inteligência e da compreensão do que separa e aproxima as duas espécies. No planeta em que os humanos foram praticamente dizimados pelo vírus símio, os remanescentes lutam não somente pela sobrevivência, mas pela hegemonia e poder. O mais humano dos macacos se tornará refém do desejo de vingança? O que nos resta de humanidade quando a violência advinda das ideologias de extermínio e a insanidade dominam as pessoas? Parecem ser questões colocadas pelo diretor no transcorrer do filme.


A trama ainda apresenta novos personagens, que dão frescor à narrativa, apresentando momentos de pura poesia e humor. A garotinha Nova (Amiah Miller), uma das sobreviventes do vírus símio, e o macaco mau (Steve Zahn), responsável pelo alívio cômico, vão acompanhar Caesar em sua jornada. Sem dúvida um bom recurso utilizado pelo cineasta para quebrar a tensão crescente entre os personagens centrais. 

Talvez Matt Reeves também queira chamar atenção para a crescente intolerância das políticas nacionais e o revanchismo. Não é à toa que está lá a bandeira norte-americana, riscada com um símbolo que, de longe, nos remete à suástica nazista. Se Caesar luta pela liberdade e toda a forma de opressão, ele não é um selvagem. A brutalidade é que transforma o indivíduo. O filme impressiona não apenas pelos efeitos especiais, mas pelo aprofundamento da narrativa e de seus personagens.

Avaliação: Muito bom

Elisabete Estumano Freire.


Dunkirk


O filme de Christopher Nolan (Batman: o cavaleiro das trevas; A origem), é uma visão britânica dos acontecimentos relativos à evacuação de tropas aliadas em Dunquerque (Dunkirk), conhecida como "Operação Dínamo", durante a Segunda Guerra Mundial. 
Foto real do cerco em Dunquerque (Dunkirk).
Para entender o filme, vamos primeiro aos fatos históricos: Fugindo do cerco alemão, que avançava sobre Paris, a força expedicionária britânica, o exército belga e as forças armadas francesas são empurradas para o litoral pelos tanques nazistas, que esmagavam os focos de resistência, chegando ao Canal da Mancha. O rei belga se rende, juntamente com seu exército, e a força expedicionária britânica recua para as praias de Dunquerque. Estranhamente Hitler os deixa ir. Com o apoio do exército francês, que tenta deter o avanço alemão nas cercanias, aproximadamente 400 mil homens esperam o resgate. Churchill convoca as pequenas embarcações civis para ajudar na retirada dos soldados, já que os grandes navios não podiam se aproximar da praia rasa. Sob ataque aéreo nazista, a retirada das tropas aliadas de maioria inglesa (mas incluindo em menor número franceses, belgas e holandeses), pelo Canal da Mancha, aconteceu entre os dias 26 de maio e 4 de junho de 1940. Apesar das baixas, aproximadamente 340 mil homens conseguem chegar à Inglaterra.


É essa história de um esforço conjunto de civis e militares em salvar os soldados encurralados que Nolan quis levar à telona. O cineasta, que além de dirigir é responsável pelo roteiro, não se preocupou em explicar os eventos anteriores ao cerco, nem os bastidores da cúpula política aliada e muito menos a estratégia nazista. O foco foi a luta pela sobrevivência. 

Ainda que os personagens sejam fictícios, Nolan se preocupou em ser fiel ao acontecimento histórico, incluindo diversos detalhes como os panfletos alemães para as tropas inimigas, o medo dos soldados em ficarem presos na parte inferior das embarcações num possível naufrágio, e até em relatos de suicídio de soldados que se jogaram no mar, numa tentativa desesperada de fugir do ataque alemão. Também é real a ajuda de civis que não quiseram entregar seus barcos para a Marinha Britânica e se voluntariaram para resgatar os soldados aliados, como o personagem Sr. Dawson (Mark Rylance); e o discurso de Churchill no parlamento inglês. Nolan contou com a consultoria histórica de Joshua Levine. 

O cineasta optou por uma narrativa alternada, apresentando histórias paralelas, que se entrecruzam na terra, no mar e no ar. O medo e a desconfiança de espiões entre as tropas aliadas, os constantes bombardeios e naufrágios, a tenacidade dos civis em resgatar e compreender o pânico dos soldados, além dos combates aéreos, as baixas e o sentimento de derrota infligida pelos inimigos alemães. 


Acompanhamos ainda os personagens centrais, Tommy (Fionn Whitehead), Alex (Harry Styles), Gibson (Aneurin Barnard), Farrier (Tom Hardy) e o soldado nervoso (Cillian Murphy), que lutam pela sobrevivência; a pequena tripulação do Sr. Dawson (Mark Rylance); e o comandante Bolton (Kenneth Branagh), figura inspirada no capitão britânico William Tennant, historicamente reconhecido pelo esforço em levar o máximo de soldados de volta ao Reino Unido.

O ataque aéreo, o avanço do exército alemão, além dos constantes naufrágios, despertam um sentimento de angústia vivenciado pelos personagens que não sabem se conseguirão sobreviver e chegar à Inglaterra. Tão perto de casa, e ao mesmo tempo, tão distantes. Muitos não conseguirão atravessar o Canal da Mancha. Um dos pontos altos do filme é a chegada das embarcações civis. Ainda assim eles temem pela recepção dos patriotas que os aguardam do outro lado da fronteira. 

O cineasta Christopher Nolan no set de filmagem
O filme emociona não somente pela competência de Christopher Nolan, mas por ser uma representação quase fidedigna de fatos reais, ainda que sob um ângulo tipicamente inglês. Talvez o erro de Nolan seja relegar a um segundo plano os esforços dos demais aliados, principalmente os franceses, que lutaram juntos contra as forças de Adolph Hitler.


Avaliação: Muito bom.

Elisabete Estumano Freire.





O filme da minha vida


Inspirado no livro “Um pai de cinema”, de Antonio Skármeta, autor do célebre “O carteiro e o poeta”, o filme dirigido por Selton Mello mistura a poesia da infância e o processo de amadurecimento de um rapaz, seus amores e primeiras decepções da juventude. 

Ambientado na década de 1960, na região da Serra Gaúcha, Toni Terranova (Johnny Massaro) é um jovem professor, que não entende os motivos que levaram seu pai Nicolas (Vicent Cassel), um imigrante francês, a abandonar a família. Apaixonado por cinema e literatura, ele guarda na memória lembranças da convivência paterna e seus ensinamentos. Com o passar do tempo, é na figura do amigo Paco (Selton Mello), um homem rude, que Toni encontra ajuda para suas angústias e anseios, pautados no desejo de se autoafirmar. Ele também busca descobrir mais informações sobre o paradeiro do pai.

O longa de Selton Mello tenta transpor para a telona toda a poesia do texto de Skármeta. Da Serra Chilena para a Serra Gaúcha, a adaptação cinematográfica apresenta o frescor de uma época de inocência, em que os adolescentes começam a despertar para a sexualidade, com uma pitada de rebeldia. Também mostra o estilo de vida simples de pessoas do interior do Rio Grande do Sul, no início da década de 1960, cujo entretenimento principal era ouvir programas de rádio e ir ao cinema na região da fronteira. 

O diretor trabalha a psicologia dos personagens através de um discurso de contrastes entre os sonhos da juventude e a desilusão da fase adulta. Enquanto Toni faz uma viagem ao seu mundo interior, chegando em alguns momentos a flutuar em devaneios e desejos, Paco é um homem desiludido, brutalizado pela vida. Sua sabedoria é a do homem pacato, que não teve a oportunidade de estudar. Ele nega o sonho, ainda que mantenha o desejo, mas não consegue alcançá-lo, talvez por não se sentir digno, já que se sente rejeitado. A interpretação sensível de Selton Mello dá ao personagem profundidade e carisma, com um leve toque de humor. O cineasta também não se furta a utilizar recursos da montagem discursiva, fazendo referência ao mestre Eisenstein ao fazer associações metafóricas, através da justaposição de imagens para expressar sentimentos e emoções dos personagens, como os delírios de Toni ao sonhar com a manada de bois do filme Rio Vermelho (Howard Hawks, 1948), ou os sentimentos de inferioridade de Paco quando se compara aos porcos de seu curral.


O grande ator francês Vicent Cassel, convidado para fazer o personagem Nicolas Terranova, é o retrato de um pai carinhoso, cuja ausência repentina está associada a um segredo.  A mãe Sofia (Ondina Clais) é a imagem da mulher resignada e apaixonada. Temos ainda os irmãos Madeira: Luna (Bruna Linzmeyer) e Petra (Bia Arantes), que povoam os sonhos de Toni, e o garoto Augusto (João Pedro Prates), seu aluno. Destaque para Rolando Boldrin, como Giuseppe, o maquinista, que surge como figura representativa do observador e conselheiro, permeando a narrativa. 

A fotografia de Walter Carvalho, com uma luz suave e uma paleta de cores que nos remetem ao outono, traduz em imagens a nostalgia dos anos 1960. Embalados pelas canções de Charles Aznavour, Nina Simone e Jerry Adriani, os personagens vão se revelando ao olhar do espectador, através de várias camadas. O filme é uma bela homenagem ao cinema e à literatura, mas também um ensaio poético sobre o desabrochar da adolescência, a construção do caráter e o processo de amadurecimento do indivíduo, tornando-se o protagonista de sua própria vida.

Avaliação do filme: muito bom.

Elisabete Estumano Freire.



Fragmentado (Split)


O trailler de suspense de M. N. Shyamalan conta a história de Kevin (James Mcavoy), um paciente com transtorno dissociativo de identidade (TDI), na sua forma mais agressiva. Dennis, uma das múltiplas identidades que coexistem no corpo de Kevin, responsável pelo seqüestro de três jovens, Claire (Haley Lu Richardson), Marcia (Jessica Sula) e Casey (Anya Taylor-Joy), tentará esconder de sua terapeuta, a Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley), os crimes que vem praticando.

O cineasta indiano constrói uma narrativa inspirada na psicopatologia humana, que apesar de exagerada (cita 24 personalidades em um único indivíduo), concentra-se em 07 identidades principais, dentre as quais Dennis, Patrícia e Hedwig. Essas três identidades, também conhecidas como integrantes da horda, acreditam na existência da besta, a fera escondida no corpo de Kevin. Através de uma narrativa paralela, em flashback, o diretor também apresenta a história de Casey (Anya Taylor-Joy), a garota-problema da escola, que tentará decifrar o estranho comportamento de seu sequestrador.

Admirador de Hitchcock, Shyamalan faz inúmeras referências ao mestre do suspense. Desde a abertura do filme, e em diversas cenas, nos trazendo à memória sequências de clássicos do cineasta britânico como Psicose (1960) e Vertigo (1958). O diretor indiano, também responsável pelo roteiro, tenta problematizar em seus personagens os traumas advindos do abuso sexual, violência física e psíquica, repressão à pulsão sexual, à fantasia e ao desejo. As relações de poder entre os personagens são construídas minuciosamente na mise-em-scène, a cada tomada. É interessante observar como Shyamalan trabalha a composição e enquadramento das cenas, assim como os planos de pontos de vista que se alternam, revelando características psicológicas e sentimentos de dominação, dependência, fragilidade e isolamento dos personagens.


Fragmentado (2017) foi anunciado como o segundo filme de uma trilogia, composta por Corpo Fechado (2000) e Glass, que deverá estrear nos cinemas em 2018.








Elisabete Estumano Freire.


Rei Arthur - A Lenda da Espada


O filme dirigido por Guy Ritchie traz de volta a lendária história de Arthur, o rei de Camelot, e o mito da espada Excalibur. 

Com Charles Hunnan (série da fox “Sons of Anarchy”) no papel de Arthur, o longa tem início com a guerra do rei Uther (Eric Bana/ “Star Trek”) contra os bruxos e a traição de seu irmão Vortigen (Jude Law/ “Cold Mountain”/”O talentoso Ripley”) para usurpar o poder. Salvo por seu pai, que morre em luta, o pequeno Arthur é criado por uma prostituta e vive como indigente nas ruas de Camelot, aprendendo a sobreviver aplicando pequenos golpes e fazendo alguns serviços. Sagaz, ele cresce fazendo aliados e se tornando próspero, mas vive atormentado por imagens de seu passado, que ele não consegue entender. Por outro lado, o então rei Vortigen, que deseja a todo custo o poder da espada sagrada não descansará até encontrar e destruir o legítimo herdeiro do trono de Camelot.

O príncipe Arthur de Charles Hunnan é quase uma espécie de Han Solo, de Guerra nas Estrelas, sempre com um certo sarcasmo, humor e inteligência estratégica. Rodeado por seus amigos, que o ajudam a enfrentar Vortigern (Jude Law), ele terá a ajuda da magia na figura de Mage (Astrid Bergès Frisbey) para fazer com que ele aceite sua missão junto à espada Excalibur em reestabelecer a ordem em Camelot. Jude Law convence ao interpretar o ambicioso Vortigen, tio de Arthur, encarnando a dualidade de um homem que, pela sede de poder, pode destruir aqueles a quem mais ama.
A versão cinematográfica de Guy Ritchie possui uma narrativa acelerada, principalmente nos flashbacks e flashforwards, abusando do recurso da edição videoclipada, nos lembrando visualmente do estilo de intervenção do diretor. A câmera rápida de Ritchie dá um ritmo pop ao filme, embalado por uma trilha sonora frenética. Além das visíveis referências aos filmes de artes marciais, com seus movimentos de luta sincronizados, os efeitos visuais nos lembram a trilogia MATRIX (1999-2003). O diretor também aproveita a trama épica para fazer uma homenagem aos velhos filmes de faroeste. 
O filme de Ritchie apresenta a jornada do herói Arthur, com belas imagens, retratando uma idade média lendária, em que a força de seus personagens está não somente na espada, mas em nobres valores, como a amizade, fidelidade e senso de justiça. 
Elisabete Estumano Freire.

Vermelho Russo


O longa, dirigido por Charly Braun, e estrelado por Martha Nowill, Maria Manoella e Michael Melamed, é um misto de ficção e documentário, narrando a história de duas amigas, que em viagem para estudar teatro no exterior, terminam revelando seus conflitos e paixões. Rodado inteiramente na Rússia, o longa é inspirado no diário da atriz e escritora Martha Nowil, publicado na revista Piauí, em março de 2009. 


Baseado numa experiência real, o filme mistura ficção e realidade, em que as atrizes/personagens são chamadas pelos seus verdadeiros nomes. Tal artifício não deixa de ser um jogo de cena, levando o espectador a questionar a linha limítrofe da encenação e do simulacro. Enquanto no palco, o professor ensina o método de Stanislavski, em que o ator precisa desenvolver o personagem utilizando-se de suas experiências pessoais, trabalhando a memória emotiva. Na tela as duas atrizes apresentam a dualidade da interpretação, entre o real e o ficcional, construído dentro e fora do espaço cênico. 


Envolvidas num triângulo amoroso, as personagens terminam revelando sentimentos ocultos, colocando em xeque uma antiga relação de amizade. O filme explora o sentimento de dependência e desgaste das personagens, que juntas enfrentam a sensação de desterro e estranhamento diante de uma cultura diferente, evidenciada pela barreira da língua e pelo clima rigoroso do inverno russo. Também aborda a construção de estereótipos e personagens da vida real, num jogo de sedução e poder. 

Parece proposital da direção não deixar muito claro os dispositivos utilizados para que o público possa identificar neste jogo o que é real e ficcional na trama, criando um certo incômodo ao espectador. Afinal, estamos diante de uma representação, de uma reconstrução do real ou de pura ficção? o filme tem bons momentos de humor, com uma narrativa leve, até desembocar no drama vivido pelas duas personagens.

“Vermelho Russo” venceu o prêmio de melhor roteiro no Festival do Rio 2016 e participou da Mostra Internacional de São Paulo. Em cartaz desde o dia 27 de abril.

Elisabete Estumano Freire.



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VERMELHO RUSSO (2016)
Duração:1h30min
Direção: Charly Braun
Roteiro: Charly Braun e Martha Nowill
Estrelando: Martha Nowill, Maria Manoella, Michel Melamed, Fernando Alves Pinto, Elena Babenco, Soraia Chaves, Esteban Feuni di Colombi.

Mais informações: IMDB - VERMELHO RUSSO (2016)



Corpo Fechado (Unbreakable)


Dirigido por M. Night Shyamalan (O sexto sentido/A vila), o longa aborda a história de David Dunn (Bruce Willis), o único sobrevivente de uma grande tragédia. Ele é procurado por Elijah Price (Samuel L. Jackson), um homem que sofre de uma rara doença, cujos ossos se quebram facilmente. Elijah acredita que David tem poderes especiais e o incita a descobrir sua real missão na vida.

Primeiro filme de uma trilogia anunciada (Unbreakable; Split; Glass), “Corpo Fechado” aborda a psicologia dos quadrinhos, baseado na caracterização do herói e do vilão, que faz parte do universo infanto-juvenil, consumido por bilhões de jovens em todo o mundo. A construção dos personagens, na oposição de suas habilidades e capacidades físicas, e na visão maniqueísta entre o “bem” e o “mal”, traz à tona a incongruência do mundo “civilizado”, que também transforma seres humanos em objetos, manipuláveis pelo desejo de controle e poder.

Mais uma vez, a fantasia ganha corpo e manipula mentes. O diretor usa de metáforas para mostrar sua visão do mundo, em que talvez somente as crianças possam perceber que o mundo realmente está de cabeça para baixo. É preciso olhar a nossa sociedade de perto e numa outra perspectiva. Elijah, assim como o profeta, influencia não somente David, mas o pequeno Joseph (Spencer Treat Clark) a desafiar seu pai para revelar seus estranhos poderes. A contradição entre Elijah e David vai resultar numa situação inusitada, que mudará para sempre o relacionamento de amizade entre os dois.

“Corpo Fechado” é um trailer psicológico sobre a frustração do ser humano e a patologia mental, levada aos extremos. 

Elisabete Estumano Freire




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CORPO FECHADO (2000)
Título original: Unbreakable
Duração:1h46min

Roteiro e Direção: M. Night Shyamalan
Estrelando: Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Robin Wright

Mais informações: IMDB: CORPO FECHADO (2000)

Imprensa (1) - Bastidores/Entrevistas

Imprensa (2) Divulgação/ Trailer

Imprensa (3) - Trailler