La La Land – Cantando Estações (2016)


O musical de Damien Chazelle conta a história de Mia (Emma Stone), uma garçonete aspirante a atriz, e Sebastian (Ryan Gosling), um pianista que sonha em montar um bar de jazz clássico em Los Angeles. Inicialmente, ambos não se mostram muito interessados, mas depois decidem lutar juntos pela realização de seus sonhos, numa cidade competitiva em que todos perseguem fama e sucesso.

Se Mia, que trabalha numa cafeteria dentro dos estúdios Warner Bros, espera ser descoberta por um agente, também quer ser encontrada por “alguém” amorosamente. O desejo de não ser mais um na multidão, se tornar especial para o outro e viver uma emoção é também o sonho de Sebastian. Entretanto, o primeiro encontro dos dois não é nada romântico, com direito a buzinadas e gestos ofensivos no trânsito congestionado. Mas o poder da música irá mudar tudo isso. O que fazemos com paixão, com sentimento, é o que nos torna especiais. A partir disso, a direção enfatiza o ponto de vista de cada personagem, abusando dos flashbacks, em que passado real e idealizado se misturam. É um pecado ser romântico nos tempos atuais, tendo contas a pagar e sendo nocauteado pela vida? Abrir mão de seus ideais e voltar ao mundo real é a melhor maneira de se viver? Qual o preço que se paga ao transgredir as regras e buscar a poesia dos sonhos?

Para Sebastian, o sonho de não permitir que o jazz morra, é na realidade, uma alusão ao musical, que parece circunscrito ao passado hollywoodiano. O esforço de Chazelle, um apaixonado por jazz e cinema, em retomar o gênero, é visível. Ele foi o realizador do musical Guy and Madeline on a park bench (2009) e Whiplash (2014), esse último indicado ao Oscar em cinco categorias, incluindo melhor filme, vencendo em montagem, mixagem de som e ator coadjuvante (J.K. Simmons). Mas o que é necessário fazer para manter o musical vivo, renascido como a fênix? Em La La Land (2016), o diretor se apropria do personagem musicista para dar o seu recado a Hollywood: “o erro é venerar tudo, mas não valorizar nada”. 

Segundo o diretor, Los Angeles parece ter se esquecido da importância histórica de se preservar os estilos, incluindo o jazz e o musical, que estão morrendo prematuramente. Para o personagem Sebastian [Chazelle], ainda que as pessoas acreditem que o jazz [musical] já morreu, pois passou o seu tempo, ele se renova sempre. Como salvar o jazz [musical] se ninguém mais o ouve? É o que pergunta Keith (John Legend) a Sebastian e, ao mesmo tempo, responde: “O jazz [musical] está morrendo porque não se renova e continua sendo tocado para pessoas de 90 anos. Onde estão as crianças, os jovens? Os grandes jazzistas foram revolucionários. Como ser revolucionário sendo tão tradicionalista?  Você está pensando no passado? Mas o jazz [musical] é sobre o futuro”. Damien Chazelle quer provar que ser revolucionário não significa descaracterizar o gênero. O jazz, assim como o musical, ainda irá sobreviver, desde que seja puro, com sentimento. O belo permanece.

O filme recupera a nostalgia dos musicais hollywoodianos, ainda que com uma roupagem mais moderna, já que estamos falando de um filme ambientado na era digital. Entretanto, só a tecnologia em volta, principalmente os celulares, parece lembrar que estamos no século XXI. Há que se falar no trabalho primoroso da direção de arte, cenografia, figurinos e trilha sonora, misturando estilos e épocas. Na cena da piscina, por exemplo, em que Mia encontra Sebastian pela terceira vez, enquanto banhistas usam biquínis e sungas estilo anos 60 e 70, o musicista surge com uma jaqueta vermelha com ombreiras, tocando numa bandinha hits do gênero pop e new wave/pós punk: “Take-on me” (A-HA), “I Ran” (A Flock of Seagulls) e “Tainted Love” (Soft Cell). Mais anos 1980 impossível.

Não é novidade o esforço dos atores, que precisavam cantar, dançar e, no caso de Ryan Goslin, aprender a tocar piano com competência para interpretar Sebastian. Entretanto, o que falta em técnica musical e dança sobra em carisma. A química na tela entre Emma e Ryan ajuda, além de belas sequências. Não há como não lembrar de pérolas interpretadas por Fred Astaire, em dupla com Ginger Rogers (Vamos dançar, 1937); Eleanor Powell (Melodia da Broadway, 1940) e Cid Charisse (A Roda da Fortuna, 1953); ou ainda, Gene Kelly com Leslie Caron (Um Americano em Paris, 1951) ou Debbie Reynolds (Cantando na Chuva, 1952). 

Fred Astaire e Eleanor Powell (Melodia da Broadway,1940)
O filme também faz referências diretas aos seguintes clássicos do gênero: “Cinderela em Paris” (Funny Face, 1957); “Um dia em Nova Yorque (On the Town, 1949); “Amor, Sublime amor” (West Side Story, 1961). E, ainda, “Charity, meu amor” (Sweet Charity, 1969), “Nos tempos da Brilhantina” (Grease, 1978), “Prazer sem limites” (Boogie Nights, 1997) e “Moulin Rouge” (2001). A nostalgia de Chazelle também recupera a poesia do cinema francês em “O balão vermelho” (Le Baulon Rouge, 1956), de Albert Lamorisse; “Os guarda-chuvas do amor” (Les Parapluies de Cherbourg, 1964) e “Duas garotas românticas” (Les demoiselles de Rochefort, 1967), ambos de Jacques Demy.

Mas nem tudo é sonho. No século XXI, não há lugar para a simplificação da vida retratada nos antigos musicais. A sociedade mudou e a ideia de realização pessoal também. Mais uma vez Chazelle inova, contextualizando o gênero para a mentalidade contemporânea. No mundo pós-revolução sexual, a mulher almeja sucesso profissional no mercado de trabalho, assim como o homem. Os personagens têm que viver com a realidade do cotidiano e fazer escolhas, como qualquer casal, seja na vida profissional ou amorosa. É o que os dois precisam descobrir, muito além de quatro estações.

Em fevereiro, às vésperas do Oscar, o filme já havia ultrapassado 300 milhões em bilheteria mundial e na sua quarta semana de exibição no Brasil já tinha mais de 1 milhão de espectadores (Fonte: Omelete). O longa foi o grande vencedor da temporada de premiações: No Globo de Ouro, venceu em todas as seis indicações (melhor filme, ator, atriz em comédia ou musical, direção, roteiro, banda sonora original e canção original); No BAFTA, o Oscar britânico, levou cinco estatuetas, entre as quais melhor filme, diretor e atriz; Também foi o grande vencedor do Critics Choice Awards (melhor filme, diretor, roteiro original, fotografia, direção de arte, montagem, trilha sonora e canção original; e no Oscar 2017, venceu em seis das quatorze indicações (Direção, atriz, trilha sonora, canção original, fotografia, direção de arte). Isso sem falar em outras premiações, nos EUA e no exterior.

Na verdade, o sucesso de “La La Land” nos festivais e nas bilheterias mostrou que o gênero ainda tem fôlego de sobra junto ao público. O filme encanta e mostra que o musical pode ser atual, apesar de ser nostálgico, assim como o romantismo. 

Elisabete Estumano Freire.

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LA LA LAND: CANTANDO ESTAÇÕES (2016)
Título Original: La La Land
Duração:2h8m
Classificação: Livre
Roteiro e Direção: Damien Chazelle
Estrelando: Ryan Gosling, Emma Stone, Rosemarie Dewitt, J.K.Simmons, John Legend

Mais informações IMDB - LA LA LAND (2016)
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