Dona Flor e seus dois maridos (2017)



Adaptado do romance best-seller de Jorge Amado, a nova versão cinematográfica de "Dona Flor e seus dois maridos", dirigida por Pedro Vasconcelos, é uma releitura do clássico nacional de 1976, com uma abordagem mais próxima da montagem teatral.

Protagonizado pelo trio Juliana Paes, Marcelo Farias e Leandro Hassum, com participação especial de Nívea Maria, o longa recupera a poesia do primeiro filme, com um olhar contemporâneo. Ambientado na década de 1940, na Bahia, a história narra a vida de Dona Florípedes (Juliana Paes), que durante o carnaval fica viúva do malandro Vadinho (Marcelo Farias). Após o período de luto, ela se casa com o farmacêutico Teodoro, homem respeitador e metódico. Entretanto, Dona Flor sente falta do primeiro marido, que retorna do além para atender aos desejos  carnais da jovem esposa.

O filme, em flashback, explora bastante o recurso da narrativa em primeira pessoa, com mais inserções em voz over da protagonista, relatando suas angústias e devaneios. A seleção de Juliana Paes para o papel foi uma ótima escolha. A atriz possui uma beleza brejeira, que lembra muito os encantos da atriz Sonia Braga, e encarna muito bem a personagem. Na versão cinematográfica de 2017, Flor avalia a performance sexual do marido, o que não acontecia no filme de 1976. Ela se ressente da inabilidade de Teodoro, o que a faz desejar um casamento que também a satisfaça na cama. A personagem de Juliana Paes verbaliza mais seu conflito entre a virtude de não trair o segundo marido, ainda que deseje ardentemente Vadinho.

É impossível assistir ao filme de 2017 sem lembrar das interpretações de Sonia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça. O trio Juliana Paes, Marcelo Farias e Leandro Hassum consegue manter o interesse do público, com um naturalismo que infelizmente não é acompanhado pelo resto do elenco, que parece estar interpretando para o teatro e não para o cinema. Essa abordagem da direção de atores, ainda que intencional, causa um certo estranhamento. Por outro lado, Pedro Vasconcelos buscou explorar mais o texto do escritor baiano, inserindo cenas inéditas que não aparecem no longa de Bruno Barreto, mas que dão um certo frescor e ineditismo na adaptação cinematográfica.

O Vadinho da nova versão é mais romantizado e menos cafajeste que no filme de 1976, interpretado por José Wilker.  Contudo, Marcelo Farias não decepciona, ficando bem à vontade na pele do malandro baiano, viciado em jogatina e mulherengo. Vale lembrar que o ator também deu vida ao personagem no teatro (2007-2012), sob a direção de Pedro Vasconcelos. No longa de 2017, a nudez de Vadinho é mais exposta, ainda que não totalmente explícita. Destaque  para a sequência do exorcismo no terreiro de candomblé, captando a beleza e o mistério do culto afrobrasileiro. 

Outra diferença é a tentativa de explorar a veia cômica do personagem Teodoro, escalando Leandro Hassum para interpretá-lo. O farmacêutico no filme de Vasconcelos é um tanto atrapalhado, desconstruindo a imagem austera dada por Mauro Mendonça. Metódico e nervoso, o personagem é carismático, mas algumas cenas são muito clicherizadas, prejudicando a performance de Hassum, que poderia ser melhor aproveitado.

Pra quem já viu na telinha o filme de Bruno Barreto (1976) e o seriado global de Mauro Mendonça Filho e Guel Arraes (1998), com Julia Gam, Edson Celulari e Marcos Nanini, é interessante conferir as novas nuances na narrativa da versão de 2017. Repleto de homenagens, incluindo uma performance à capela de "É doce morrer no mar", composição de Dorival Caymmi, o lançamento de "Dona Flor e seus dois maridos"  de Pedro Vasconcelos é uma boa oportunidade para o público conferir as boas interpretações de Juliana Paes, Marcelo Farias e Leandro Hassum do clássico de Jorge Amado na telona.

Elisabete Estumano Freire.


 
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