YVONE KANE

"Yvone Kane" é uma coprodução Brasil/Portugal, dirigida pela portuguesa Margarida Cardoso e estrelada por Irene Ravache e Beatriz Batarda. O filme narra a jornada de mulheres em conflito com a história oficial, buscando desvendar a verdade através de narrativas orais e documentos extraoficiais. Também aborda a necessidade do sentimento de pertencimento, o preconceito e a violência contra a mulher, no contexto das lutas anticoloniais e do racismo.

Depois da morte da sua filha, Rita (Beatriz Batarda) retorna a Moçambique, onde viveu a infância com sua mãe, a médica e ex-ativista Sara (Irene Ravache), que atualmente trabalha num convento e está muito doente. Na juventude, Sara conheceu a guerrilheira Yvone Kane (Mina Andala), mulher que se tornou um símbolo nacional de independência daquele país. Entretanto, Rita desconfia da versão oficial sobre a morte da líder revolucionária e começa uma investigação particular para descobrir a verdade por trás da narrativa mítica.

O longa aborda a questão do pertencimento, da necessidade de se sentir aceito num território marcado pelo conflito interracial e pelas relações de dominação colonialista. A película apresenta essa tensão constante entre os personagens, que convivem com um certo estranhamento, decorrente do racismo. A ruptura dos relacionamentos é visível, ainda que se tente resgatar o que se perdeu no tempo. É o que acontece com as personagens de Sara e Rita. Entretanto, o recomeço só será viável para mãe e filha quando todos os segredos forem revelados.

Enquanto Rita (Beatriz Batarda) encontra barreiras para desvendar o mistério da morte da ex-guerrilheira, Sara (Irene Ravache) é surpreendida com uma denúncia de estupro coletivo envolvendo seu filho adotivo Jaime (Herman Jeusse) e alunas internas do convento dirigido pela Madre Superiora Rosário (Francilia Jonaze). Com o desaparecimento de Jaime, a tensão entre a freira e a médica só aumenta, expondo a difícil relação entre essas mulheres. Sara começa uma busca pelo paradeiro do rapaz e não terá descanso enquanto não esclarecer os fatos.

Com um ritmo mais compassado, a narrativa é centrada na dinâmica dos personagens, em que a contemplação e o silêncio em muitos momentos dão o tom dos conflitos internos. Aquilo que é dito é menos revelador do que o não dito. Na montagem desse quebra-cabeças, Rita e Sara são os vértices desse mistério. Se Rita precisa encontrar as respostas sobre Ivone Kane, Sara aguarda o tempo tentando aceitar o que a vida lhe trouxe. Destaque para a personagem da atriz brasileira Irene Ravache, que interpreta uma mulher que perdeu muito do encantamento da vida, mas por trás da aparente frieza e arrogância, esconde uma grande fragilidade. Depois de inúmeras lutas, ela persiste em seus ideais, acreditando até o fim nos princípios morais e no amor que transforma o ser humano.

O filme participou do Festival do Rio de 2014, além dos festivais internacionais de Cinema Luso-Brasileiro de Santa Maria da Fé, Festival de Cinema das Noites Negras, 39º Guarnicê de Cinema (2016), e 17º Festival du Cinema Bresilien de Paris (2016), em que Beatriz Batarda foi premiada como melhor atriz.  O longa foi filmado em locações em Moçambique. É uma produção da Filmes do Tejo II, de Portugal, e MPC Filmes. Contou com o apoio financeiro do ICA - Instituto do Cinema e Audiovisual (Portugal), da Ancine (Brasil), da RTP Rádio e Televisão de Portugal e da Fundação Gulbenkian Calouste

Elisabete Estumano Freire.



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